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Veneno... com Açúcar!
pseminveja@hotmail.com
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Sexta-feira, Dezembro 31, 2004
LOOK
Na noite de todos os brilhos, que corpo e alma celebrem em harmonia a festa. No glamour ou com a simplicidade que cada um inventar. O básico é qualquer coisa assim...
Jennifer Janesko
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu atitud de entrega
Jennifer Janesko
Como remate, o negro é valor seguro. Dobrando e aveludando a pele.
Tiembla en la noche húmeda mi vestido de besos
locamente carregado de eléctricas gestiones,
de modo heroico dividido em sueños
y embriagadoras rosas practicándose en mi.
Michael Zavros
Foi o teu olhar que me disse...
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena de alma mía.
Mariposa de suño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palavra melancolia.
Pablo Neruda
A noite da ilusão maior - eternidade por persistirmos enquanto o ano finda - como milagre da vida. Um final de 2004 que o nosso íntimo celebre sem omitir a solidariedade.
escrito por Tati 11:12
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Dezembro 30, 2004
TRETAS ESOTÉRICAS
Autor que não foi possível identificar
Troncos torcidos ou regulares. Ramos que o tempo crestou rendilhando-se em mais. Até se afilarem, perderem matéria lenhosa e numa vulnerabilidade tenra e verde acabarem. O recorte de uma árvore no horizonte sugere-me busca de infinito e prece aos céus. Procuram luz dizem, e espreguiçar vida ao crescerem em altura. Saberão que o porte altivo não lhes acresce vigor, antes fragilidade que os elementos, como o ar em fúria e na forma de vento, tentam medir? E sendo vivas, onde estará o centro que nelas palpita, o equivalente ao coração das gentes?
Das árvores é muito o que não sei, sendo que devem ter procuras visíveis e outras subterrâneas. Obscuras. Como eu, como todos os que fazem parte da viva condição. Admiro as esguias, as que por existirem são arte espontânea de tão perfeitas, as irregulares e de tronco magoado pelos anos, as de folha caduca anunciando estações.
Nas árvores aprecio a diversidade, a elevação ao céu ou tão somente a busca de destino na Terra. Como eu...
escrito por Tati 10:13
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Dezembro 29, 2004
VENENO
Autor que não foi possível identificar
É de bom tom não chorar em público. É contrário à dignidade... dizem. Além disso, desarranja as linhas do rosto. Não se dê o caso de mágoa intempestiva e pouco ligada a estas coisas da etiqueta vir à tona, os óculos escuros e de griffe apurada estão sempre a jeito. Interpõem muro entre os outros e a dor individual.
O que poderia ser tido por gesto de reserva, para alguns resume-se a uma despudorada insensibilidade a passar por comedimento. O ar blasé de quem já viu muito e pouco julga haver que lhe acrescente surpresa, encaixa numa contenção emparedada por convenções rochosas e cinismo descarado.
Para todos chegará o dia em que a mágoa dilacera a alma. Como chegou às gentes que perderam quem amavam engolidos pelo mar expulso da Terra em fúria. A dor pelo pai, o irmão, o filho, o marido ou um amigo, um desses seres, enfim, que quando desenraizado do nosso coração deixam nele um vazio eterno e uma chaga muito sangrenta. Aí as lágrimas correm por si próprias. Pouco importa se o rosto fica marcado com rugas de aflição ou delas há testemunhas.
escrito por Tati 10:10
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Dezembro 28, 2004
AÇÚCAR
Autor que não foi possível identificar
Os «psis» afirmam que gerir afectos é como gerir dinheiro - requer ponderação. Sendo que a economia obriga a balanços, pelo final do ano é acto comum. E dei por mim atentando nas motivações da selecção dos «Adoçantes» que aqui ao lado alinhei. Mais composta hoje que há um ano quando nestas andanças patinhava.
Reconheço não terem mudado as razões que aos meus olhos tornaram esses blogs espaços apetecidos. De onde infiro que se as intuições selvagens me podem criar dúvidas, raramente me enganam. Divido os «Adoçantes» em três séries quanto ao género dos autores: os que do pénis nem vestígios ( malgré a teima freudiana), os hermafroditas (fazendo fé nalguns dos nicks e não arredando a hipótese de serem deliberadamente equívocos) e os que do pénis são portadores (assim dito até parece malformação genética, o que não é de todo o meu intento).
Sem Pénis
Abrigo da Pastora
Bomba Inteligente
Cotada em Bolsa
Escrevo Apenas
Fata Morgana
Mau Feitio
Passo a Passo
Puta de Vida
Sendo que a Bomba é ímpar nestas doudices voláteis, teriam, se falados, pronúncia do Norte três dos blogs que mais me cativam: Passo a Passo, o da agora ausente Cotada em Bolsa e Escrevo Apenas.
Hermafroditas
A Vaca Louca e seu Badalo
A Loira
Blasfémias
Causa Nossa
Torneiras de Freud
De todos se alimenta o meu pensamento vadio. Do imaginário delirante da Vaca Louca, ao alternativo Freud. Ficam pelo meio as análises do Causa Nossa e os sublinhados do Blasfémias.
Com Pénis
Dois terços dos «Adoçantes». Se excluir por justa vantagem afectiva e decorrente encantamento o Exacto, Novos Voos, a Tasca e o Troblogdita, recolho no 4ª Ferida, Abrupto, Adufe, Almocreve das Petas, Aviz, Mar Salgado, Nas Fronteiras da Dúvida, Ser Português e Rua da Judiaria leituras que me trazem o "mundo á nossa medida. Redondo como os olhos, e como eles, também, a receber de fora a luz e a sombra, consoante a hora." (M.T. - Orfeu Rebelde)
Não sendo de bom tom atribuir «pénis de ouro» a todos os «Adoçantes» aqui do lado - seria admitir sentirem ausência ou inveja dele as que o não têm e nos que o possuem poder o prémio desencadear ilações contaminadas por presunções atrevidas - limito-me ao apreço que me merecem. A todos eles é o afecto e/ou a admiração que me liga.
escrito por Tati 10:37
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Dezembro 27, 2004
ACQUA_R_ELLAS
Autor que não foi possível identificar
Não é fácil materializar uma expressão tridimensional da alma sob a forma de palavras, imagens ou matéria inorgânica. Há momentos gravados a fogo na pele e na memória que se capturados por câmara ou tela nunca esgotariam o sentido. Um beijo, o calor de uma mão, a paz de um horizonte, um olhar ou um sabor podem perpetuar-se no nosso íntimo sem que, à vista de um avaliador comum, nada os distinga dos demais. Vacilo na presunção da impossibilidade de dar suporte a um sentimento ou a um instante, ao pensar na obra-prima de Rodin - esse beijo esculpido em mármore onde os amantes parecem respirar debaixo de água, cada um soprando vida dentro do outro.
E lembro aquela noite parada, o negrume trocado pela prata lunar, o silêncio como cristal que não suportaríamos quebrar, o alerta dos sentidos mesmo depois de apaziguados, a contaminação de identidades que mal ousava distinguir-nos, o arrepio perante a magnificência das emoções confundidas. Que nos esmagavam pela raridade e beleza. Revejo o momento em que a cambraia das cortinas esvoaçou soprada por uma brisa inesperada. O restolhar dos ramos agitados, do voo incerto das pétalas brancas desfolhadas das rosas. E a noite acordou. Nós com ela. Mais tem havido, mas aquela foi a noite em que melhor esculpimos o amor. Materializada, só por Rodin.
escrito por Tati 12:16
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Dezembro 26, 2004
CORREIO SENTIMENTAL
Collen Ross
«Viver o tempo de Natal é prova desejada e temida. São propiciados encontros familiares que o ano espaça em demasia. Ou talvez não... Deles saltam interpelações pessoais. Incómodas ao obrigarem a repensar afectos e actos. Ao desarranjarem precários equilíbrios. »
Talvez porque a pressa tem folga nestes dias, há vagar para ver o que noutros escapa. E surgem mais gravadas as rugas no rosto do pai, a linha do cabelo mais recuada, a flacidez da pele rosada e linda da mãe, a leve tremura nas mãos. Demoramos o olhar. É então que se entorna a verdade - os pais envelheceram muito. Sinais de decrepitude instalada que vazam boa parte da alegria.
E enquanto os risos se soltam e o brilho nos olhares crepita, as interrogações vêm à tona: "amei-vos do modo que eu queria?", "estive presente quando necessária ou o tempo e a vontade permitiam?" Surge o consequente desejo de tornar diferentes os dias que aí vêm. De não desalinhar prioridades ou cair em alienações. Bons propósitos que são isso mesmo: meras intenções.
Nesta calda de sentimentos tão doce-amargos e pungentes fica a certeza de tudo se dissolver no quotidiano. Que terei de omitir aquilo que me magoa. Por vezes é a única maneira sensata e equilibrada de poder continuar.
escrito por Tati 09:05
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Dezembro 24, 2004
BON CHIC, BON GENRE
Autor que não foi possível identificar
Por este tempo, são useiros e vezeiros os cartões de Natal. Ditos de Boas-Festas. E lembro idos em que a respectiva escolha e compra requeria tempo, a escrita dedicação e direito a protagonismo num serão familiar. O da tia Judite que enrugara azeda (o Altíssimo lá sabia que da Judite nunca vem coisa boa!) ficava para o fim. E com variações em torno de um tema só, a redacção era quase sempre a mesma - "Votos de Feliz Natal e próspero Ano Novo desejam..." Aquele «próspero» sempre me intrigou. Parecia-me pretensioso. Justificava-o a diferença festiva que o discurso escrito sublinhava. Como fios de ovos no pão-de-ló.
Num tempo que todos precisamos próspero, fica para os que por aqui passam desejo singelo - Natal de serenidade e amor.
E na hora de todos os presentes, nada desequilibre a alegria...
escrito por Tati 10:32
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Dezembro 23, 2004
AÇÚCAR
Autor que não foi possível identificar
Há aromas que identificam pessoas. Ou tempos ou lugares. Os da infância perduram recusando a borracha apagadora dos anos. O do pinheiro é um deles, mais o da terra remexida nos campos e o da cera dos altares. Também o dos linhos lavados e da redenção primaveril.
Os sons são mais frágeis, como se a onda vibrante que os constitui, ao ser suportada pelo etéreo ar, estivesse predestinada à extinção. Os mais obstinados ou significantes lá arranjam canto da memória para se arrumarem. O dos sinos anunciando alegria ou desgraça, a voz esganiçada da prima volumosa. Poucos mais, salvo se combinados com arte. Esses são intemporais.
Da cozinha chegam odores intensos - o das frituras é detestável! - a lembrarem gestos e ternura. O do chocolate fundido, do caramelo líquido, o de um bolo crescendo no forno. Das compotas ou da marmelada emana doçura no ponto. E apetece regredir à infância, ir buscar o banquinho e em bicos de pés fazer prova antecipada e gulosa dos manjares. Pedir depois em voz mimada e com o olhar arredondado - "Posso rapar o tacho, posso?"
escrito por Tati 13:21
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
TROCAS E BALDROCAS
Wojtek Sudmak
Ao ouvir algumas idealizações femininas sobre o parceiro ideal, convenço-me não fantasiarem um homem mas um kit - olhos de um, as costas de outro, as mãos de um terceiro, covinhas nas bochechas de um desconhecido. Acrescem o romantismo sem lamechice, a força isenta de arrogância, poderes de adivinhação, serem surpreendentes, infatigáveis no amor nas dias em que elas não se sentem exaustas, ternos e atentos, rodeando-as de mimos nos restantes.
Este cenário mental é confortável e desculpabilizante - como tal criação não existe, podem conformar-se ao deserto afectivo ou à relação vazia que mantêm com o par. Protelam para o dia de «São Nunca» um compromisso ou a coragem de mudança. Curiosamente, ao construírem o todo a partir de fragmentos e sem a identidade de um ser, criam mentalmente um homem objecto enquanto rejeitam a condição de mulher objecto.
A fantasia em alta nalgum imaginário feminino tem ingredientes: homem lindo ao volante de um carro desportivo, discreto e elegante, que não se atrasa um segundo, de sorriso cativante e bouquet florido na mão, que decide com segurança o restaurante do nosso agrado e adivinha o prato que nos apetece rematado pela sobremesa de frutos silvestres. Tudo regado por discurso fluente, inteligência e humor refinado. Fim de fantasia/negação da realidade.
escrito por Tati 12:27
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Dezembro 21, 2004
TRETAS ESOTÉRICAS

Autor que não foi possível identificar
Há factos que me transcendem nisto de entender coisas e pessoas Uma delas é a da diferença genericamente sexuada no tempo dispendido na casa de banho. Nós somos eficientes e nem um minuto a mais do tido por indispensável. Um duche rápido, se o tempo não dá para mais, o creme corporal aplicado em massagem revigorante e a nuvem de perfume em que gostamos de entrar depois. Somamos um toque de maquilhagem e arrumámos a questão. Eles, desculpando-se com a refrega matinal, sempre perdida, com a barba, demoram o dobro para menos - não se maquilham, mal tratam do rosto e cremes suavizantes no corpo... nem vê-los (falo do homem comum, não dos emergentes metrossexuais). Eficazes são eles na evaporação asfixiante da água quentíssima que os deixa naquele vago tom de lagosta suada.
Mas há mais. Os que não se rebelaram a tempo contra a segurança a que se julgam obrigados em qualquer ocasião, podem estar absolutamente perdidos em estradas ignoradas dos mapas oficiais, que parar e pedir informações nem sequer é poderado. Se o cansaço for muito e a derrota óbvia, cedem à pergunta feita por nós. E, no final, será de esperar um encolher de ombros enfadado e um "bem me parecia!"
O precário e incerto destino das peúgas deles é outra fatalidade. É extraordinário como conseguem arruiná-las num curto intervalo de tempo, ainda que o uso repetido seja muito espaçado. Será que eles andam como nós ou marcham arrastando os pés? As peúgas sobreviventes são depois desirmanadas nas máquinas de lavar. Juro que já me pus de cócoras e espreitei o tambor! Nunca encontrei a boca glutona que lá dentro lhes dá sumiço e «chama um figo». Sendo que eles chegam a casa com as ditas calçadas, como é possível que no dia seguinte, e após os bons ofícios da lavagem, de duas reste uma? Que coordenadas identificarão o «além» das peúgas finadas?
escrito por Tati 08:35
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Dezembro 20, 2004
TROCAS E BALDROCAS
Autor que não foi possível identificar
É perigo não assinalado este tempo de Natal. Permite alienações em torno do essencial - presentes, reencontro com a família, festa sugerida também pelos enfeites das ruas e música sazonal. Mas o íntimo de cada um permanece tal qual. Apenas acresce dissonância se são mágoas que surripiam o brilho do olhar.
A solidão absoluta ou acompanhada é mais vívida quando a festa do amor e da ternura salta do calendário. E não é preciso ser sem-abrigo ou excluído da fortuna para experimentar a pobreza na vida. Desta há formas várias e as mais complexas - porque menos entendidas - são as que repousam em contas bancárias aconchegadas. Ser pobre, paupérrimo de amor e carinho e, contudo, haver conforto com requinte e a certeza da satisfação de caprichos materiais facilmente atendida.
Nada como sentir cicatrizes na alma ou chagas ainda abertas para entender as dores alheias. Para afastar a indiferença pelo outro que sofre ou da penúria social e moral faz o dia. Ser solidário mesmo, obriga a aguilhão espetado no reduto interior ao testemunharmos situações que confrangem. E requer acção. Gestos que ao aliviar quem sofre nos distraiam das nossas próprias dores, A solidariedade, a partilha como exercício de dádiva e egoísmo em simultâneo. Dou um sorriso porque dele preciso. Estendo a mão por ser escasso o calor humano que sinto. Para aquecer e ser aquecido. E como é difícil pedir auxílio quando em vez da «Cais» na mão estendida, estão luvas de fina pelica protegendo mãos de cetim...
escrito por Tati 08:20
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Dezembro 19, 2004
TELEGRAMAS
Entrara na loja porque o vestido da montra lhe parecia fazer a surpresa perfeita. Ao vê-lo, a dona precipitou-se ao seu encontro; sem uma palavra puxou-o para o cubículo de provas. Correu cuidadosamente a cortina. Perplexo, ele pensava estar, sem saber, num dia de sorte. Ela esmerou-se num beijo, arqueando-se encostada a ele. Depois, descendo o olhar: "Trouxe aquilo?" - "Aquilo?! Trago-o sempre comigo" balbuciou, enquanto a face dela, há pouco ruborescida, adquiria lividez - tinha-o confundido com alguém.
Chegara, finalmente, a sua vez de pagar. Na azáfama da época de Natal, a vendedora da perfumaria não se tinha dado conta que a terceira casa do botão cedera à pressão do peito farto que, subitamente liberto, se oferecia num garboso e patriótico decote. Ele sentiu que assim lhe faltavam condições para confirmar o troco. Timidamente, com os olhos e apontando para a sua própria camisa, tentou chamar-lhe a atenção, mas teve que acabar por ser explícito. Ela não se fica: "Incomodo?" Ele corou!
Ela metia gasolina, agulheta na mão enquanto atestava. Separados por escassos quatro metros, ele fazia o mesmo. Ela olhou-o fixamente, levantou os óculos escuros até ao cabelo ao dar conta do ridículo do acto (lembrava-lhe que não é comum as mulheres fazerem-no de pé). Quando a bomba disparou, a malícia tinha-lhe tomado o olhar. Pergunta ela: "E agora? Três vezes?"
Escrito por JG
escrito por Tati 12:16
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Dezembro 18, 2004
BON CHIC, BON GENRE
Um copo a mais. Não de tal modo sobrante que anestesie a consciência. O excesso justo que apague o que é penoso, insuportavelmente penoso, e faça pairar a alegria.
Nunca bebo se é do dia-a-dia o falado. Mas na excepção, como complemento duma refeição em que misturei sem parcimónia amor, desvelo e intenção, aí, sim!, comemoro a diferença. E posso exceder-me no líquido fluido, que, por raro, o meu metabolismo sublinha. Ficam então soltas racionalidade e emoções. Estas como que adquirem liberdade ignota; vai daí, traem a contenção da prudência usual. Espiam os meus segredos escusos e delatam-nos sem contemplações. Por isso receio o excesso gastronómico acompanhado de um bom vinho. Nunca sei onde irá parar a fuga dos meus segredos que a (in)consciência se apressa a aproveitar.
Lido mal com a mentira. Muito mal. Sempre assim fui. Já na infância denunciava o que queria omitir. Por isso desisti da mentira. Não por virtude, mas por incapacidade de gestão. Tenho para mim que um bom vinho é o subterfúgio que a minha vida adulta encontrou para expor o que sinto incapaz de reservar. E a verdade em mim não é qualidade, antes prova de fuga mal sucedida. Triste condição...
Diagnosticado o problema, melhor será optar por líquido mais inofensivo...
escrito por Tati 13:09
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Dezembro 17, 2004
VENENO
De caçadores furtivos acusam-se os discordantes do poder instituído. Só que o poder aglomera controlos vários, jogos de interesses sinistros, opacos, raramente translúcidos. Transparentes, então... nunca!
O poder já foi tido como mágico e paradigmatizado pelo Estado ou pela Igreja. Não no presente. O político já não é referência. Antes serve utentes de tapete rolante directo ao que mais importa - o poder económico. E é nesse tapete fofo dos gabinetes que se regateiam, como nos mercados, favores ou bugigangas. Enquanto na mais escandalosa ingenuidade, por vezes num refinado cinismo, se apela aos valores clássicos, indiscutíveis e muito, sempre muito legítimos.
Ensinar, liderar, seduzir, implicam constranger, imposição de uma vontade ou manipulação. E negociação. Até na domesticidade ela existe e um pode mais que o outro. Registos de funcionamento de formas de poder que conhecemos. Nunca o suficiente para lhe escapar.
Ao rotular de caçadores furtivos quem pensa e analisa e não se impede de o divulgar, o poder mais fraquinho, mais vulnerável, envereda pela via corriqueira da culpabilização. Acusa de filhos ingratos os que desafinam da partitura oficial. E paternaliza através de ralhetes duros ou suaves, fingindo-se pai do povo. Instilando nos distraídos sentimentos de condenação. Enquanto se revela, tão somente, indexado à mais banal mediocridade.
escrito por Tati 12:57
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Dezembro 16, 2004
CORREIO SENTIMENTAL
«Dizem-nos de Marte e a nós de Vénus. Acrescentam que é inevitável a tensão erótica entre um homem e uma mulher heterosexuais. Se a tudo somarmos os ciúmes que uma relação de qualquer tipo pode implicar, decorre que a amizade entre um homem e uma mulher parece estar à partida condenada. E fica a questão - não podemos ser amigos? Sem qualquer colorido?»
É minha convicção que a cumplicidade, um histórico comum e as características individuais tudo determinam. Sentir-me confortável com alguém não tem a ver com o género. Estabelecer ponte relacional com um homem sem portagem na sexualidade, é possível. Desmentindo a pressão social que faz sobreviver as velhas regras das relações românticas entre sexos (flirt, namoro ou casamento).
Há mais-valias sem contestação na amizade com alguém do sexo oposto. Um homem ouve e recorre menos a juízos de valor. É mais racional e não se detém em especulações laterais. Analisa os factos e dispensa enfeites nas conclusões. Permite a experiência de uma relação de generosa igualdade entre um homem e uma mulher. Eles apreciam-nos a abrangência nos temas falados, a visão afectuosa que temos do mundo e o desapego emotivo em assuntos classicamente masculinos - automóveis, tecnologias ou futebol.
Não temo os gestos espontâneos de proximidade física que entre amigos sempre acontecem. Estão isentos de confusão. Aceito-os com a mesma naturalidade que agradece mimos de uma amiga. E devolvo-os com idêntica liberdade.
escrito por Tati 13:44
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Dezembro 15, 2004
ACQUA_R_ELLAS
Que tempo é este que vivemos? O de Darfur ou o do consumo idolatrado?
O nosso tempo é acima de tudo assimétrico. Contraditório. De extrema miséria e doente de barriga tão cheia. É um tempo veloz. De medo e confiança. Medo de ausências - da saúde, dos afectos, da liberdade, de objectos que inventámos como indispensáveis. De confiança na capacidade criativa dos humanos e na sua própria redenção. Tempo disperso e tolerante; as diferenças são oficialmente aceites e é condenada a castração dos direitos individuais. Tempo de omitidas utopias e em que encolhemos os ombros ou fechamos os olhos a povos massacrados.
Tive o tempo em que ao ser interpelada pela injusta repartição de bens e direitos renegava o tempo em que era. Foi o tempo da utopia, da inocência entretanto perdida. Desta, deixei algures no caminho uma boa fatia. Sem o reduto em que guardo a restante, não seria eu. Preciso de confiar. Em mim, nas pessoas, na vida, na capacidade criativa de que os humanos dão provas.
É na arte, na ciência e na teimosia dos homens em resistirem aos maiores infortúnios que me detenho para beber a fluida esperança. Mais do que nas religiões. Destas os homens fizeram alimento para fanatismos vários a impossibilitarem substantivas conversões. Este é também o tempo dos ídolos. Raramente meritórios.
Povo descuidado na protecção dos criadores - artistas, cientistas ou pensadores - que pelo seu génio ou exercitado talento elevam a humana condição e se consome no desgastado ter-e-haver, não dá ao «ser» mais do que existir. E essa é a pobreza maior.
VENENO
A ex-coligação ou deverei dizer a coligação?, ou a futura, quiçá, coligação PSD/PP faz lembrar aqueles bolos aparatosos de cores improváveis e formas ridículas - é artificial, tresanda a conservantes danosos e faz cá um azia!... Extraordinário é haver quem compre.
Mal comparado, faz lembrar o «boneco» Zé Manel Taxista da Maria Ruef, na TSF, ao dizer: "Quando o Benfica (PSD) está na mó de baixo, o que consola é não ser do Porto (PS) ou do Sporting (BE). E aí, penso: - deixa lá... Que se lixe!" Fim de citação.
escrito por Tati 10:36
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Dezembro 14, 2004
TROCAS E BALDROCAS
Há quem seja categórico ao afirmar que os blogs femininos distam léguas dos congéneres masculinos. Andei por aí a espreitar o fundamento de asserção tão difundida. Exceptuemos o template, emotions e animações. Vamos aos textos onde é suposto estarem as diferenças que contam.
Aos blogs geridos por mulheres é atribuída menor objectividade - já tardava! -, maior tendência para arejar a intimidade e abusarem de ociosidades que podem ter a ver com um esturrado culinário ou a vacina traumática do bichano. Em todos, deles e delas, há tendência recorrente por parte de quem lê de julgar diário de bordo pessoal um ocasional passeio pela ficção.
Nos blogs femininos - basta consultar os «Adoçantes» aqui do lado - encontrei humor, textos imaculados na forma e centrados na análise do momento social ou nos afectos (10% em contagem aproximada sobre conteúdos deste teor).
Parti numa ronda pelos blogs dos nossos parceiros. Reconheço serem eles mais dados a comentar o presente a nível político e(ou) económico e menos dispostos a deambulações afectivas. Contudo, uma vez mergulhados na subjectividade que os sentimentos sempre permitem, (pres)sinto-lhes emotividade destemida. Haverá - e isto é especulação à solta! - obediência de uns e doutros aos parâmetros que tradicionalmente nos enformam: deles é esperado pragmatismo, de nós são aceites conteúdos dispersos.
Certo é a oportunidade da abordagem, a qualidade do discurso ou a ponderação das análises estarem definitivamente arredadas de qualquer assimetria cromossómica. Apenas o talento, com género mas sem sexo, faz a diferença.
escrito por Tati 15:25
Veneno ou Açúcar?
PEREGRINANDO
Tenho uma predilecção por moinhos e faróis. Uns e outros remetem o meu imaginário para idos do tempo que pinto com cores de simplicidade quase ingénua. Que nunca terão tido, já que o ser humano é constante na essência - extremado na dignidade ou na malícia. Mas é a rudeza de uma vida que eles simbolizam. Árdua, madrasta e a fazer da sobrevivência uma aventura. De todos os dias.
Assumindo o gosto por destinos fora dos produtos turísticos do costume, um há que cativa de modo indelével. Pelo todo que uma viagem sempre comporta - local e companhia. Na Holanda existe um refúgio de reencontro com um tempo quase perdido. Solitário como todos os faróis. Propício à fusão de dois «eus» que por força do afecto fantasiam a unidade. Impossível. Por isso mais desejada.
Fica no extremo de um porto. Uma escada liga três andares. No primeiro fica a casa de banho impressiva pela luminosidade. No segundo um quarto de design ultramoderno e com uma cama de casal de dimensões compatíveis com vastas liberdades. Vidros como parede de nada privam. De manhã bem cedo, a guarda do farol traz um cesto de pãezinhos. A plataforma do terceiro andar permite saboreá-los na contemplação do mar e no vai-e-vem dos barcos no porto.
Para esquecer que o mundo existe basta fechar a porta e só a abrir 24 horas depois. E aninhar a ilusão de um universo de serenidade.
escrito por Tati 08:14
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Dezembro 13, 2004
LOOK
Ao que é fashion não sou indiferente. Se acrescer conforto, a cedência não demora um pestanejar - compro! Até porque odeio isso de «andar às compras», entrando, saindo, (re)mexendo e experimentando durante lojas e tempos a fio. Tenham dó! Para isso não sirvo. Dá-se o caso de ter corpo de pobre que enfia bem quase tudo sem grandes escolhos ou emendas. Normalmente, nem experimento. Avalio o tamanho e já está! É raro um engano. O que simplifica a questão. Talvez por isso prefira perder-me em galerias ou livrarias. Nas primeiras mexo com o olhar guloso, nas segundas vingo-me e acompanho com as mãos.
Vem isto ao caso de um Outono particularmente frio que me obrigou a repensar a questão das botas e botins de salto alto pelos quais me perco. De sola fina, pouco isoladora de friagens à séria. Vai daí, não hesitei - comprei botas estilo rodeo ou cowboy. Salto mais baixo, sola espessada, com a vantagem de serem compatíveis com jeans justos dentro delas. Aconchegados por meias de lã. E decidi ter ganho a batalha do frio. Como detesto perder, mesmo que seja a feijões, vim feliz!
No dia aprazado pela meteorologia, calcei as ditas. Um sufoco até o pé deslizar e encontrar o destino. Não desanimei - petulância do que é novo! Um par de vezes e fica domada a insolência. E o dia correu sem sobressaltos. Pelo anoitecer, chegada a casa, celebro a domesticidade com aconchegos diferentes. Curvo-me sobre as botas, inicio os gestos costumados de quem se descalça e deparo-me com a mais veemente recusa que algum dia enfrentei. Mudo de posição. Sento-me e dispenso toda a feminilidade do gesto em favor da eficácia. Sem resultado. Optei pelo puxão. Nada! Afogueada e perdida toda a compostura, centrei força e engenho. Consegui! Ficou a lição: perder a arrogância de que no acto de compra o meu olhar basta, e nunca usar as rebeldes se for previsível o acto de deixar espalhados despojos pelo chão. É que o desejo urgente tem limites de paciência!
escrito por Tati 10:13
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Dezembro 12, 2004
TROCAS E BALDROCAS
É comum pensar que por detrás das designações Homem e Mulher estão impérios dos sentidos muito diferentes. A somarem diferença à biologia. E foi uso ter por certo que ser Homem era melhor que ser Mulher. A eles cabia a coisa pública, a herança, a posse de nome e bens, dos filhos e das mulheres. Isto até há menos de meia dúzia de décadas atrás.
Bastou uma geração para tudo alterar. Tornou-se inútil a força física, a agressividade e a autoridade como chefes de família; a imprescindibilidade como reprodutores evaporou-se com as novas tecnologias. Passámos de um mundo centrado no poder masculino para outro que quase lhe caricatura os atributos ancestrais.
Os homens de hoje patinham no desconforto da hesitação entre papéis a desempenhar. Ainda lembram referências passadas e nas do presente reina a confusão. São permutáveis como amantes, maridos e pais. Não têm o treino feminino na gestão dos afectos de que agora lhes pedem contas. Equiparam-se sem vantagem especial a qualquer força de trabalho feminina. Nas novas gerações são menos cultos e letrados do que as mulheres. Mais associais e delinquentes. E sentem - sentimos todos! - estar na ruína o mito ancestral do homem como sexo forte.
Em contraponto, penso que se abre agora ao Homem um novo mundo de possibilidades. Têm a oportunidade única de deixar cair a pele da força inquestionada e do pragmatismo empedernido. Podem finalmente ser pessoas libertas dos coletes que os manietavam. E viver sem contenção os amores, as emoções e as incertezas. Podem deixar correr, sem censura, as lágrimas. Finalmente!
TELEGRAMA
Se é verdade que os tempos de hoje tiraram ao Homem o tapete debaixo dos pés, não é menos certo que começam a encontrar novos horizontes. Mais vastos e gratificantes que os deixados. Digo eu... que sou mulher.
Que alguma coisa permaneça - uma árvore de Natal enfeitada de modo minimalista mas plena de intenção.
escrito por Tati 11:04
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Dezembro 11, 2004
TRETAS ESOTÉRICAS
"És tão forte! Quem me dera ser assim..." Frase comum e proferida a propósito daqueles que parecem envoltos em armadura de aço onde as dificuldades embatem e parecem fazer ricochete. Como se deles irradiasse ânimo invencível nunca abatido pelo que aos outros derruba.
Mas não há seres assim. Os homens e mulheres-aranha não passam de ficção. Super-heróis só em banda desenhada ou produções de Hollywood. Na campânula da realidade que aos humanos envolve apenas há pessoas por natureza frágeis e precárias. Com princípio, meio e fim. Incerto qualquer deles. Anunciado o fim desde o madrugar da vida.
Dizem-me forte e admiram essa auréola que afirmam eu ter. E procuro, busco e rebusco dentro do que sou e não a encontro. Apenas vontade. Determinação em derrubar cidadelas de escolhos a impedir o caminho. Ao sitiar com o meu batalhão de expedientes o que se me afigura difícil, danoso para os que amo ou de algum modo precisam de mim, saio não raras vezes ferida. Porque sou vulnerável e esses super-poderes que me atribuem são ilusão. Como efeitos cinéfilos ou mágicos de técnica e simulação.
O coelho que sai da cartola, a pomba que esvoaça do lenço há pouco vazio, são truques. Só a inocência infantil lhes atribui possibilidade. Assim sou eu. Aprendi subterfúgios que contornem dificuldades se estas não são de fundo. Sendo-o, vou à luta. Capitular, evito; antes pelejar com as armas que tenho à mão. Por vezes fisgas rudimentares. Só a sorte ou a perícia ocasional me permitem derrubar o obstáculo. E ao dizerem-me forte, esquecem os arranhões, as fracturas de alma que das batalhas ficaram. Não viram ou quiseram ver que a pomba esvoaçante tinha sido treinada no tempo e a custo de bicadas na minha pele.
escrito por Tati 11:14
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Dezembro 10, 2004
LOOK
Tempos houve em que as fardas eram referência no imaginário erótico. Pilotos de avião, militares, padres e médicos para nós, enfermeiras e hospedeiras de bordo para eles. A imaginação é fértil em arranjos convenientes que a estimulem...
A constante nestas fantasias é o desvio. Fazer alguém inflectir a missão de que foi investido que não a de dar prazer. O ser humano revela-se demónio tentador que na perversão do outro encontra prazer exponenciado.
Na actualidade, este tipo de fantasias está prejudicado. Militares significam guerra e somos pacifistas. Médicos implicam listas de espera ou consultas de preço exorbitante. As sotainas reunem-se no Vaticano. Os pilotos estão demasiado entretidos com o controlo do avião ou as hospedeiras para nos alimentarem fantasias.
Sobra o reajuste ao presente. Um ecologista fardado só com uma parra e de cartaz na mão dizendo "Salvem o Planeta" ou um pacifista em pelota, envolto num lençol branco e de ramo de oliveira em riste. Assim se resigne o nosso imaginário ao politicamente correcto.
escrito por Tati 12:54
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Dezembro 09, 2004
CORREIO SENTIMENTAL
«Amores insanos. Excessivos. A tirania de mão dada com o sentimento»
Vivemos na paixão do amor. De tão obcecados, confundimos, num ápice, alhos com bugalhos. A atracção de um instante, uma empatia mútua ou enamoramento embrionário põem muitos em êxtase sonhador, com aquele sorriso vago anunciando estado de graça. Acabamos por enfiar sentimentos muito diversos no mesmo saco em forma de coração. E a coberto de nobres sentimentos, escondem-se formas de vilania.
Desculpam-se os que matam por ciúme, aqueles que conservam parceiros por chantagens - "ou ficas, ou mato-me!" - pais que manipulam os filhos e, se calhar, vice versa. Tudo legitimidado pelo "bem deles" ou pela estima que lhes temos...
Se muitos usamos, ocasionalmente, estes e outros subterfúgios, alguns há que do amor fazem doença. Doença que contagia a vítima e os que o sentem, alojada num interstício escuso e sem mezinha que a cure. Na dúvida se tal maleita é herança de uma educação baseada num amor que dele só tinha o nome, é sensato vigiar a sanidade dos amores. Tal como um cleptómano que rouba por compulsão, também do amor e pelo amor se desenvolvem obsessões. A fazerem infelizes quem nelas se enreda. Porque doença não é amor.
escrito por Tati 12:17
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Dezembro 08, 2004
AÇÚCAR
Um dia frio de luz pálida. O sol, porque reclinado na abóbada que nos envolve, chega morno e roubado da energia que, sem atender a órbitas ou estações do ano, emite. As cisões e fusões nucleares são indiferentes ao fluir do tempo. Renovam-se a partir do alimento que na estrela encontram. Mas é deste tempo frio e seco que se faz o Natal que amo.
Peregrinar pelo pequeno comércio de bairro - Campo de Ourique é perdição! - misturando olhares e risos com amigas de sempre, fazer uma paragem para aquecer o corpo por via de chá quente e scones, adoçar a alma com confidências e remoques cúmplices das que nos acompanham as dores e a felicidade de ontem e no presente.
Mel loiro que escorre direito ao coração. E imersa na jovialidade que os anos não ousaram roubar, descobri presentes embrulhados em amor, acresci «nadas» de ilusão aos enfeites do espaço que me acolhe, ri, brinquei, sussurrei naquele estado de graça que o frio de Dezembro faz nascer. O nariz e a face rosados de frio, a alma aquecida pela amizade e ternura que o Natal sempre confirma. E sou feliz. Nem sempre. Hoje, sim.
escrito por Tati 18:26
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Dezembro 07, 2004
ACQUA_R_ELLAS
Manhã de um Novembro enevoado. Pingos acordando preguiçosos e a demorarem a queda. O automóvel cumpria o caminho conhecido e deslizou, ronceiro, até ao semáforo - no começo do dia, evito a pressa angustiada do chego-não-chego e prefiro o vagar. Depois, são obrigações em carreirinha na agenda como rol de lavadeira. Estendo a primeira, torço a segunda, bato a terceira e por aí adiante. Clips como molas, papeis como sabão multiplicado em bolhas, secretária por tanque.
Blues embalavam-me até o encarnado forçar a paragem de sempre. Tão previsível como o meu caminho, como a rotina securizante a conter o que sou, não vá uma insanidade de instante corromper a eficácia ou a sensatez. A minha subversão pessoal será sempre um prazer...
Foi quando ouvi. O som de um violino esvoaçava tímido. Como escusando-se por estar ali. Quem o tocava tinha o ar respeitoso dos que a música têm como sagrada. As calças vincadas, o colete ajustado e a camisa branca enchendo o olhar. Um rosto eslavo, de traça fina alegrado por um sorriso. Que me deu e devolvi. Na precariedade da vida celebrava a eternidade da música. Uma moeda por beleza e dei o dia como ganho. Mais merecia quem suavizar o quotidiano tem por ofício... Olhei os que de lado e atrás se colavam. Ninguém fechou o vidro ou hesitou.
escrito por Tati 18:52
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Dezembro 06, 2004
IN & OUT
Supremacia na condução é um dos últimos bastiões masculinos num mundo em que as mulheres rivalizam com os homens em todos os campos. Eles julgam que ao volante dão cartas e só eles usam calças. Além de também as usarmos, temos saias que, de resto, fazem o favor de subir no assento e permitem que pernas delineadas e suaves manipulem com segurança pedais.
Homem que se preze tem como facto sem discussão que mulheres ao volante são calamidade à solta. E nunca entenderá que o automóvel para nós e uma extensão com rodas do nosso território profissional ou doméstico. Enquanto conduzimos, programamos refeições, agendamos tarefas, idealizamos os acessórios para aquele vestido que vai tão bem com o nosso tom de pele. E telefonamos. Muito. Gerimos a condução como a vida - de modo prático, eficaz e abrangente. Sem tempo para «rodriguinhos».
Se a opinião dos nossos parceiros fosse lei, seríamos recordistas em acidentes de viação. Contudo, 92% dos condutores mortos, 87% dos feridos graves e 77% dos feridos ligeiros são homens. E porquê? Porque qualquer acréscimo de capacidade masculina no controlo do veículo é desperdiçado em termos de segurança pela condução agressiva que praticam. A nossa postura é mais defensiva e cívica.
Li algures uma história que tipifica a diferença dos sexos na postura rodoviária. Um homem conduz numa estrada deserta. Uma mulher cruza-se com ele em sentido oposto. Ela inclina-se e pela janela grita «Porco!». Ele não se fica e berra «Sua cabra!». Continuam. Chegado à curva seguinte, o homem espeta-se de frente num enorme suíno plantado no meio da estrada. Ela bem o tinha avisado!
escrito por Tati 17:55
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Dezembro 05, 2004
TROCAS E BALDROCAS
É dito por especialistas que quase todas as mulheres têm um amante de referência. Alguém que, convenientemente idealizado, sabe tudo sobre elas: gostos, desejos que nem às paredes confessam, sonhos e pulsar físico. Nalguns casos este personagem existiu de facto, noutros foi uma imagem elaborada pelo psiquismo. Puramente virtual. O que nem vem ao caso, porque basta como fonte de inspiração e consolo, ainda que imaginária.
Como nem só de devaneios é feita a existência, virtualidade e realidade não combinam satisfatoriamente. Além de ser pobre evocar sempre o mesmo homem para a mesma coisa... Um cínico diria que é precisamente para isso que servem os maridos.
Uma terapia possível, aconselham, é escolher um amante que não preste para nada e facilmente descartável. Argumentam com duas ponderosas razões. A primeira é ética: quando comparado com ele o legítimo adquire novo fulgor e ter prazer sem limites com o marido, anos a fio, ainda é excepcional mesmo no século XXI. A segunda razão é conjuntural: os maus amantes abundam, são muito bem sucedidos - nunca entendi este paradoxo! - e fazem-se inacessíveis, dado que só acresce adrenalina e desejo.
Não creio que o remedeio proposto sirva de muito, mas se os sexólogos, legitimidados pelo saber, o dizem, quem obedecer à receita pode sempre argumentar que em vez de cometer adultério apenas cumpre à risca uma terapia.
escrito por Tati 18:07
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Dezembro 04, 2004
PEREGRINANDO
Não se resolvem problemas ou crises fugindo. Mas, inerente ao afastamento, a distância relaxa a alma e permite que a relatividade se interponha e tudo enquadre. Uma fuga a sério. Para um Verão longínquo que se inicia em Dezembro. Horizontes infinitos. Espaços que parecem intermináveis. Quem passa pela Patagónia e Terra do Fogo confirma que tem alma. Espinha dorsal também, ali constituída pela cordilheira andina.
A Tierra del Fuego é quase um mito. O do fim do mundo como lhe chamou Luis Sepúlveda. Fernão de Magalhães passou por ali ao explorar novos continentes. É um estreito com o seu nome que separa a ilha de fogo do resto do continente americano. Ushuaia, a cidade mais ao Sul do mundo, tem pela frente o Canal Beagle e protegem-na picos glaciares que se elevam a 1500m do nível do mar.
Dois ícones não permitem distracções - Museo del Presidio e o Ferrocarril Austral Fueguino. Antigas e elegantes carruagens, puxadas por uma locomotiva a vapor, percorrem durante pouco mais de hora e meia a distância que vai da estação do Fim do Mundo ao Parque Nacional. Ou fazer o mesmo cavalgando pela estepe e ficar para sempre apaixonado pelo excesso de beleza e espaço cheio de nada. Ou do tudo que a beleza extrema também comporta.
«Desenha-me uma ovelha». No "Principezinho", St Exupéry que voou sobre o Sahara, os Pirinéus e a Patagónia, faz surgir a Isla de los Pájaros, na Península de Valdés, como a jibóia que digere um elefante. Os picos das montanhas são decalcados da cordilheira Fitz Roy. Tão impressivos como a obra-prima do escritor. Memórias de fogo como a ilha remota onde o mundo parece acabar.
escrito por Tati 17:26
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Dezembro 03, 2004
VENENO
Os Profetas. De ontem e de hoje. Controversos, capazes de gerarem excessos no aplauso ou nos ódios radicais. Situam-se numa fronteira ténue entre o conhecimento arrebatador e a insensatez. São como ilhas no oceano dos homens - obstinam-se no seu discurso excessivo e incómodo. Se o apreço das multidões prevalecer à rejeição, em vez de profetas melhor seria ver neles demagogos.
Dos profetas dizia-se serem «iluminados», e era no domínio religioso ou sagrado o domicílio da respectiva mensagem. Hoje, a abrangência está aumentada. Desde a política ao futebol não faltam «profecias» e são mais que muitos os autoproclamados «profetas». Alguns há que se negam a si próprios e não hesitam em declarar convictos: "Prognósticos só no final do jogo".
Mais parece caber ao entendido, hoje, por profeta o significado atribuído no Brasil: "acendedor de lampiões da iluminação pública". Podem acender alguns, muitos até, mas com chama trémula e pronta a ser apagada de seguida. Sem precisar de ventania.
O denominador comum entre os falsos profetas e os genuínos é o poder de fascinar e convencer indivíduos e multidões. Remetem para o medo mais profundo e antigo da condição humana: o medo do invisível e do desconhecido. O medo do escuro. Talvez por isso a necessidade de concentrarem em si os focos da atenção pública, como alimento da chama a iluminar quem neles acredita.
escrito por Tati 14:02
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
LOOK
Andamos arrepiados. Pelo frio, pelo acontecido, por tudo o que está para vir. E não nos entendo! Tento, tento e não consigo. Somos ou não mestres na arte de «desenrascar» o que se afigura torcido? Pois se somos, confiemos nesse atavismo comum. "Tudo se há-de resolver" é o que soe dizer o português quando as contas se empilham e a solvência encurta ou a vida chicoteia em vez de afagar.
Nisto de crises tenho como certo ser melhor equacioná-las e, pragmaticamente, arribar a conclusões, do que carpir mágoas e arejar lamentos sem acção a acompanhar. Sendo que convicções é como peneiras, cada um tem as que quer!, defendo ainda que preferível a lodaçais é uma boa enxurrada que suje, entupa, mas arraste de uma vez detritos e dejectos. Quem vier depois para arrumar e tudo limpar, não terá margem para dislates se não quiser acabar encalhado como regedor de uma nova província espanhola.
Sendo que os principais opositores no próximo acto eleitoral são farinha do mesmo saco - ambos fashion -, e que a bancarrota espreita, proponho que nos resumamos a um look minimalista. Coerente com o país.
escrito por Tati 15:26
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
TRETAS ESOTÉRICAS
Carta ao Pai Natal
Há muito não te escrevia. Desde que descobri os pais, pé-ante-pé e transbordando ternura, a dispor sob o presépio presentes de amor para comigo. Era pequena. Tinha, então, caracóis compridos espalhados pelas costas e presos no cimo com um laçarote. A mãe, que em cada me manhã lhes dava forma, compensava o tempo demorado dizendo que me fariam uma Gigliola Cinquetti. Que nem fazia ideia quem fosse... Alguém bonito, decerto, para com ela a mãe me comparar (aos olhos de uma mãe todos os filhos são belos).
Feita a descoberta da tua irrealidade, guardei-te como memória de um tempo de ouro e troquei-te pelo Menino Jesus. Esse havia existido. A prova eram as imagens doces e a veneração inspirada. Hoje, é a ti que volto. Num mundo instável e cruelmente desigual, não me parece bem incomodar o Menino por ninharias. E com o cepticismo que os anos sempre trazem, desaparecidos os caracóis e o laçarote, foi-se com eles alguma da crença inocente. Como símbolo de esperança iludida cumpres o papel.
Mais do que aquela viagem fantástica que, sabes, há muito adio, peço, além do prioritário - saúde dos que amo e melhoras no mundo -, um trilho novo para o país. Vai-se o Santana e virá um Sócrates. Mais do mesmo, ainda que passemos da fruta para a flor. Estando farta de boys e vagas que os entretenham, queria alguém sério que privilegiasse o trabalho, a honestidade e a competência. Só para variar!...
O Sócrates anunciou no dia da viragem, que ao Vitorino (ora aí está alguém para dirigir o país!) caberia o programa do governo. É um começo. Um bom começo, não fosse a desconfiança na coragem inovadora do PS. Temo, sabes, que se perpetue na classe política de qualquer cor o compadrio e a irresponsabilidade. Por isso, se não for abuso, pedia um governo de Salvação Nacional. Que sem estigmas partidários os melhores, os mais capazes em cada área e com sensibilidade política trabalhassem em conjunto. E que uma Assembleia nova, isenta da modorra futriqueira, fizesse do empenho leal aos que a sustentam a prática.
Tu, Pai Natal, podes ser imaginário. Mas aceitas a fantasia e autorizas-me a pedir o que pedi. Depois, não me olhas de soslaio e chamas visionária sem remédio. Antes alimentas o sonho e me fazes renascer os longos caracóis presos num laço.
escrito por Tati 16:44
Veneno ou Açúcar?

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