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Veneno... com Açúcar!
pseminveja@hotmail.com
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Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
TELEGRAMA
Quanta saudade de um dia de chuva... Espreitar pela vidraça e ver que o desejo húmido da terra foi satisfeito. Pegar num guarda-chuva mas sentir primeiro pequenas gotas deslizando lentamente na face. Ouvir pingar. Olhar a água que foge bravia. E sentir-me tão inesperada quanto ela.
TROCAS E BALDROCAS
Autor que não foi possível identificar
Nos tempos épicos dos saldos, coravam de excitação as faces femininas e cumpriam-se rituais. Aliás, a mulher vivia por esse tempo submersa neles - limpezas de primavera, festas familiares nas datas convencionadas, espectáculos com intervalo adequado ao glamour exibido, chás, bridge e canasta com amigas. Depois, havia essa maravilhosa instituição designada por «criada», no presente politicamente correcto empregada interna, que permitia infinita minúcia e empenho no hoje tido como frivolidades, à época, balões de oxigénio a vivificar rotinas.
Os tempos eram parcimoniosos e a poupança um valor estimado. As modistas iam a casa fazendo o milagre de deixar na moda um tailleur absolutamente démodé. A vida doméstica, gerida com mão férrea, garantia saldo positivo no final de cada mês. Os saldos, sem desmentir este alinhamento de prioridades, legitimavam excessos nunca insensatos.
Dos saldos só um dia contava: o primeiro. Indispensáveis: boa forma física, madrugar, estratégia apurada e lugar cimeiro na fila para a loja de prestígio reconhecido. Ao soar o clarim, até aí sensatas donas de casa partiam para o ataque, lutavam heroicamente e arrebanhavam o entendido como troféu e pechincha. Tudo bem seguro numa braçada, não fosse a rival, num puxão certeiro, desbaratar o esforço. A triagem era rápida e dificultada pela algazarra do mulherio em guerra. Apenas em casa se avaliava a vitória ou a derrota.
Hoje, os saldos são pindéricos e a bolsa só pode estar descosida já que todo o vil metal que nela entra, sai furtivo. A emoção de antanho foi substituída pela displicência. Os orientais saldam todo o ano. As «reduções» deixaram de ser sazonais e perderam o sabor da restrição e compita. Como morangos de estufa que do fruto de estio só têm forma e cor. Ainda assim, comprei há dias uns jeans fantásticos - o preço original sugeria pespontos em fio de ouro e fecho com diamante no pendente - abrangidos por uns pecaminosos 70% de desconto. Os trinta pagos deveriam obrigar a acto de contrição e penitência. De caminho, a mala e o cinto que eles imploravam vieram - magia pura! - parar-me às mãos. E a casa. É que uma mulher não é gelo esculpido....
escrito por Tati 10:55
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Janeiro 30, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Robert Lambert
Escrever na paz de uma casa que dorme. Mover-me preservando o silêncio. Um café aromático e quente aquecendo corpo e alma. Um domingo de iludida perfeição. Pintá-lo com a domesticidade que segura, conforta e tolhe. Nunca na totalidade - o pensamento voa sem necessidade de permissão ou paredes que o detenham.
É única a serenidade do instante. O recolhimento protegido da fria manhã de Inverno que o sol embranquece. E escrever. Registar palavras que pincelam, imperfeitas, o silêncio, e se harmonizam com o pendular do relógio. Vão e vêm. Registam o tempo sem o reterem. Ele flui insubmisso. O pêndulo oscila obediente. Como as palavras e eu.
Neste elo que me ampara quando a angústia ou a dor ou a percepção cruel da minha imperfeição me molestam, há oportunismo. Uso-o e deito-o fora quando é a infinita a vontade de voar com o vento arrebatador da rebeldia. Depois, há o regresso. Quero sempre regressar. Não importa o espaço físico desde que seja porto de abrigo identificado como meu. Onde o que sou possa exprimir a infinita ternura pelos que amo. Sempre o império dos afectos a orientar os passos. A mesma força que me faz caminhar sem recriminações interiores pelos erros. Porque deles é a minha gratidão. Mais do que das alegrias ou dos momentos em que fui feliz. Foi sempre o erro que me ensinou a «ser». E sou.
escrito por Tati 11:07
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Janeiro 29, 2005
LOOK
Terry Rodgers
Alguma frivolidade sempre coloriu os dias. Quando neste mundo blogofésrico, tantos dissecam a actualidade e as maleitas de que padecemos com discernimento e profundidade, e mais ainda nos motivam o prazer de leituras ou divulgam as artes, sobra-me pouco mais que andar à roda desta magia que é ser pessoa. Evito contemplar, embevecida, o próprio umbigo, sempre fascinada com a diversidade dos seres e cadeias de relação.
Do que observo tiro prazer, e disso fazendo companhia quando desocupada, convenci-me serem delatores o visual e a linguagem corporal que os indivíduos de sobrevivência assegurada exibem. Deles contando mais do que os próprios julgam. Insinuando modos de estar e prioridades. Indiciando estéticas de vida.
Nalguns enquadramentos sociais reconheço ter dificultada a tarefa se espiolhar personalidades pelo aspecto e modos, se esse for na altura o meu entretém. Elas vestem as mesmas marcas e são clientes dos mesmos criadores, eles fazem dos uniformes considerados de bom tom nessas círculos sociais a farda de serviço.
O caricato vai ao ponto de ser possível, sem uso de calculadora, dizer o montante do investimento feito em cada um nos trapinhos envergados numa precisão até às unidades. Assim como assim, basta pertencer ao meio e frequentar os mesmos «fornecedores»... E os gestos? A maneira de falar? Salvo a estridência de uma ou outra voz que a disciplina ainda não domou, ou alguns tiques intransmissíveis, poderíamos tomá-los por cabides da mesma fábrica de confecção.
Fui corrosiva, sei, mas que fazer? Há dias em que acordo assim.
escrito por Tati 13:05
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
IN & OUT
Isto de ser feliz tem que se lhe diga. Se o prazer foi por Sócrates associado à boa moral e a dor ao mal, já para Epicuro a chave da felicidade estava em minimizar a ansiedade através de uma mudança das nossas atitudes e crenças. A revolução sexual dos anos 60 viria a fazer edifício dos princípios epicuristas.
Sendo que as pessoas podem ser felizes enquanto sofrem e infelizes enquanto experimentam prazer, parece sensato estar atento a quem distingue dois tipos de felicidade: a relacionada com as sensações físicas de bem-estar e a relacionada com valores, desejos e princípios de vida.
Tornar dominante a felicidade parece ter, afinal, receita fácil - não fazer do prazer imediato a fonte de gratificação. Acumular satisfação para os desejos, mas situá-los em patamares não exclusivamente sensoriais é caminho aconselhado. Pode ser objectivo de aprendizagem durante toda uma vida. Compensador. A independência dos limites temporais e dos factores externos ao indivíduo não é despiciendo para quem cada pedaço do tempo conta. É que ser feliz acontece de dentro para fora.
escrito por Tati 16:28
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Janeiro 27, 2005
VENENO
Autor que não foi possível identificar
Há erros que evito correr. Um deles é patinar em jornais noticiosos de determinada televisão nacional. Não que os das outras se distanciem na substância ou responsabilidade, apenas subentendem um pouco de pudor. E no meio da refrega pelas audiências, evito ratoeiras informativas descaradas.
Vem isto ao caso das divulgadas conclusões de um estudo britânico relativo à relação inteligência feminina/casamento. Tenho como princípio que os estudos divulgados pelas televisões são espremidos até só restar a parte sumarenta e polémica, frequentemente adulterada. Pelo caminho, fica a substância real da coisa; disso tenho provas mais que bastantes nalguns, poucos, que domino e antes aprofundei. Têm tanto a ver com o original como néctar de pacote e sumo de fruta carnuda recolhido no momento.
Concluíram, num estudo britânico, que as mulheres mais inteligentes rejeitam o casamento. Justificaram pela observação lúcida da sobrecarga de tarefas que o dito lhes impõe, sendo preferida a união de facto. Como se a partilha de cama e pucarinho não arrastasse carga de trabalho doméstico idêntica à que ao casamento dá má fama... A verdade, é que se a sobrecarga das mulheres existe neste particular, é devida à subjugação a estereótipos ancestrais que não escaqueiramos.
E só entre nós, minhas amigas, sem ouvidos masculinos à coca, assumamos que a perfeição doméstica como mães e companheiras nos dá um infinito poder de que tiramos proveito com a nossa proverbial subtileza. Permite-nos controlar os que amamos com trelas afectivas que odiamos perder e das quais não somos vítimas inocentes. A generosidade, a abnegação, o sacrifício pessoal, o cansaço e a falta de tempo autorizam-nos milhões de suspiros e outros tantos lamentos. Sejamos honestas - opção nossa. Afinal, o exercício do poder dá gozo! Que o digam os nosso políticos, tão martirizados que nem um mergulho podem dar anonimamente, mas que enquanto não anunciam, de novo, o dia do alto do poleiro não nos dão ponta de descanso...
escrito por Tati 08:23
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
POSTAIS
Autor que não foi possível identificar
Six 0 four. 604, uma discoteca no 19º andar de um arranha-céus em Cape Town. Ele sentou-se numa mesa baixa e ela apressou-se a apresentar-se: Anna, judia (fez questão em frisar). Estava nervosa, preocupada e agitava constantemente os longos e sedosos cabelos louros. Tinha na mão o canhão da chave do carro cuja metade ficara partida na fechadura da mala do carro.
Ele, solícito, desceu com ela e, após algumas tentativas, conseguiu o necessário equilíbrio entre ambas as partes metálicas abrindo a mala. A comemoração do facto foi efusiva e gratificante.
A história do quase impossível sucesso, pareceu-lhe digna de ser contada a bordo.
"Um Mazda, coupé, amarelo?" Já todos tinham "desenrascado" a Anna!
Texto escrito por JG
IN & OUT
Zambknij Okno
Perguntaste - "As «meninas» ficam com aquelas caras por andarem «naquela» vida ou vão para «aquela» vida por terem aquelas caras? O que têm duas pessoas como nós para se surpreenderem, misturadas e confundidas com pessoas cinzentas? Haverá, secretamente, uma apetência inconsciente pelo perigo que aproxima os seres? Atrai-nos a faceta 007 a compensar os nossos dias tão «certinhos»? Ou sagazes e curiosos não resistimos ao que (pres)sentimos como encobridor de silêncios e mutismos? Se a verdade é como o azeite, porque nos sentimos tão magoados quando finalmente o véu a destapa?"
Não sei responder a tudo porque o essencial remete irremediavelmente para o que surgiu primeiro - o ovo ou a galinha. Mas sinto em cada pergunta uma ponta da verdade escusa, a cada instante à (in)consciência subtraída. E ao perguntar, respondeste. Porque neste redondo que é a Terra, não são lineares alguns sentimentos. Porque na vida que desejávamos rectilínea como o sonhado, curvámos, torcemos a trajectória e fizemos cortes. Não os bastantes, mas os possíveis. E recordo, no início, aquela tua frase: "no amor e na vida precisamos ser jovens para fazer revoluções". O presente desmentiu ou... confirmou-a?
escrito por Tati 08:26
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Janeiro 25, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Henry
Falam de ventos polares. Adormecidas as moléculas da água por via da baixa energia, ligam-nas pontes de hidrogénio - frágeis à escala humana, fortes e solidificadoras se o Ängstrom for a medida - e a água cristaliza. Nasce gelo. A difundir luz como cristal arrumado que se preze. Por isso reluz e dele entontece o brilho.
Do clima são falados os extremos do presente e que dez anos vindouros agudizarão ao não retorno. Assim ensandecemos o planeta, enquanto nós ensandecíamos... E se pitada de loucura é condimento que não dispenso para saborear a vida, é bom usar com medida. Nela envolvendo quem lhe reclama a ausência e de modo inofensivo.
Abrem-se as estações do «metro» para acolher quem não tem abrigo. Recomendam-se cuidados que protejam os mais frágeis. Anunciam-se linhas telefónicas para préstimo de ajuda. É como dispensar paliativos quando era profilaxia o pedido. O possível dirão alguns. O imediato, direi eu, para quem dos seus não cuida ou sabe.
E sairei de casa aconchegada na quentura da cachemira. De uma garagem para outra num percurso climatizado e forrado pela música escolhida. Olharei os esperançados no verde que nas passadeiras batem o pé num tremor que não vence o frio. Lerei vidas arrefecidas nos rostos anónimos que o doce bafo da fortuna esqueceu. No automóvel ao lado, alguém usará o momento para retocar os lábios ou o rimmel. Os outros? O meu verde, a pressa deles, arredá-los-á do caminho.
escrito por Tati 08:26
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
CORREIO SENTIMENTAL
Autor que não foi possível identificar
«Moralistas. Admitamos que sem hipocrisia. Isentos de farisaísmo. No outro extremo, aqueles que aprimoram a visão utilitária dos outros. Cumes e nodos da onda vibrante que é a existência das pessoas.»
Assustam-me militantes fundamentalistas. Seja qual for a doutrina que os oriente. Rejeito espartilhos constrangedores, além do sensato, da liberdade e da distinção entre o bem e o mal inerente a qualquer ser humano. Logo, moral.
Se dermos como aceitável que a ética é bebida com o leite materno misturado com o fluido meio envolvente, o indivíduo cresce desenvolvendo a moral subjectiva - cumprimento do dever pelo acto da vontade - e a moralidade objectiva - obediência à moral enquanto fixada pelas normas, leis e costumes da sociedade. As duas componentes requerem, se o discernimento não estiver anestesiado, disciplina interior férrea e nem sempre se harmonizam.
A incoerência da prática de vida de cada um com o ideal ético é comum. Todos a experimentámos em incontáveis situações. Porém, à medida das aptidões individuais, tentamos polir cada acto com a lima da razão. Sem nos distrairmos da evolução dos princípios éticos. Fortalecendo a vontade. Isto, se os «carneirismos» nos forem insuportáveis.
Mas há outros: os que apregoam limites rígidos, intolerantes, para os comportamentos e os que, não sendo amorais, convivem sem drama interior de grande monta com as imoralidades que praticam. Com o abuso dos outros e respectiva manipulação. Como se as pessoas fossem Kleenex - quando inúteis, incomodam e passam a vestígios de mau gosto. A deitar fora. Sem culpa ou rebate de consciência.
escrito por Tati 10:29
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Janeiro 23, 2005
PEREGRINANDO
Will Kramer
Embarcar num comboio de luxo e reviver os dias da Rainha Victória a bordo do "Royal Cotsman", permite reunir conforto e a ilusão de recuar no tempo. Pela janela desfilam os verdes campos escoceses entrecortados por outros que a lavra acastanhou. Contorna-os o verde profundo, quase negro, dos abetos. As Terras Altas da Escócia são mágicas e continuam a irrealidade que a perfeição pode ter logo à chegada a Edimburgo.
Se as baixas temperaturas, a chuva ou o assobio do vento não fizerem arrepiar caminho de destinos em que a frialdagem impera, há o vale de Toulourenc, nas faldas do Monte Ventoux no Sul de França. Brantes é uma pequena aldeia que, não fossem os sinais do presente a que o conforto obriga, diríamos medieval. Tem escadas que o tempo poliu, fontes sussurrantes, santos musgosos recortados em pedra e um castelo a encimá-la.
Desafiando a montanha, um conjunto de construções do século XVIII utilizando a pedra da região abriga uma destilaria. Centenas de ervas aromáticas - as mesmas que inebriam o ar de todo o Midi e que a par do azul do mediterrâneo são impressão digital -, medicinais e de perfume, são ali semeadas e tratadas.
Lavanda e lavandim. A selvagem e a híbrida. A primeira, de porte modesto, fornecendo a essência a lembrar o aroma das gavetas em que, imaculados, aguardavam uso os enxovais. A segunda, muito maior, quase seis vezes mais produtiva do que a lavanda permite extrair uma essência canforada destinada a suavizar lixívias e produtos de limpeza.
Seja qual for o destino, que o frio não atemorize. O ar que corta a face é o mesmo que agudiza o prazer da descoberta. E no regresso aos ambientes cálidos da pernoita, ainda é tempo de peregrinar pelo prazer que soubermos inventar.
escrito por Tati 11:04
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Janeiro 22, 2005
TRETAS ESOTÉRICAS
Autor que não foi possível identificar
Das balanças muito é dito. Quase tudo confirmado ao resumir-me a conceitos gerais que me abrangem. Não sou, então, mais que produto de catálogo nas matrizes que me definem.
Num dos nossos comuns momentos de partilha, revisitaste memórias antigas. O acontecido nunca mo havias contado. E nem sei se pelo facto de idos que nem de ti sabia a existência, se da intensidade vibrante carregada pelas tuas palavras incisivas, senti o coração de súbito pequeno. Não maior que uma ervilha. Quase explodindo pela pressão emotiva. Insuportável. Feia. Destrutiva.
Das balanças não é comum referirem o sentimento de posse exacerbado. O ciúme. Contam-nos como diplomatas, equilibradas. Insubmissas no mais fundo, sensatas à superfície. Talvez por isso, olhei-te com suavidade e disse: "também por esse arrojo gosto tanto de ti". A verdade da omissão. Deverias ter ouvido que o ciúme me enfurecia e o arrojo seduzia.
Meia hora depois, discordávamos sobre a motivação da fé tão distinta nas nossas vidas. Olhavas com lentes de espanto a minha veemência no que até aí fora pacífico. Não era convicção. Só de ciúme eu padecia.
escrito por Tati 10:43
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
POSTAIS
Autor que não foi possível identificar
- Quantos anos tens?
- Dezoito.
- Vives com os teus pais?
- Vivo com uma amiga, num apartamento, há 4 anos.
- O Natal deve ser muito bonito aqui... Afinal a Finlândia é a terra do Pai Natal, vem da Lapónia por aí abaixo com as renas, a meio da noite, tudo cheio de neve, a família...
- Não, o Natal não presta para nada; o dia mais bonito é o do início do degelo em que atiramos uma moeda para as fontes e fazemos amor com os namorados.
- Queres jantar comigo?
- Claro, mas tens que ficar responsável por mim; nos restaurantes servem vinho e eu ainda não tenho 21 anos.
Escrito por JG
BON CHIC, BON GENRE
Colleen Ross
Etiqueta. Normas de conduta. Convenções sociais. Num tempo em que finaram tantos interditos, outros foram gerados e minam a liberdade individual. Dos que o permitem, está visto!
Um beijinho. Nunca dois, se pertencer ao clã elitista é suposto. Menos ainda balançar na opção perante aquele que o(s) receberá. Intuir, em fracção de segundo, se quem nos cumprimenta tem vínculos de pertença ao estatuto que o solitário beijinho reclama. Nunca ser tentado ao contacto dos lábios com o rosto do agraciado. Um simulado toque e o cumprimento fez-se. Tudo muito light, sem beijoquices de meia-tigela.
Marcas identificáveis pelos pares. Fatalmente associadas a estilistas de prestígio. Na ausência de abastança, a contrafacção «giríiiissima», comprada em New York ou Roma substitui com infinita vantagem a peça genuína e fiável, contudo anónima. E depois, há o toque excêntrico ao acrescentar que foi «fantáaastico» - arrastar as vogais e abri-las em igual proporção é assinatura vocal tão decisiva como um Chanel genuíno - descobrir em lojas inenarráveis de posidónias aquelas pechinchas. É sempre importante revelar indiferença ao estatuto e que o pedigree é tão, mas tão consistente que vai bem com a simplicidade. Estudada esta, normalmente inexistente aquele.
Aparecer em revistas cor-de-rosa (vendem como pão quente e manicures e cabeleireiros não as dispensam) é a suprema ambição. As férias até podem ser em Alguidares-de-Baixo, mas inadmissível é não surgir na fotografia com a pose do costume - perna direita à frente e pé esquerdo obliquado atrás - na festa do Champanhe no «T» algarvio. Pode ter pernoitado no divã ou enrolado no saco-cama no «living do melhor» que aquele amigo «super querido» tem na Quinta do Lago. Ok, Vale de Lobo também serve, mas atenção: Vila Sol já é cedência.
E numa vida-de-faz-de-conta os devaneios são progressivamente mais insatisfatórios. Como dose a cada dia reduzida e a que a adição pede reforço. A ressaca da solidão, o vazio do deserto afectivo é anestesiado por um look renovado, um lifting de rosto ou um spa da moda. Só as rugas e estrias da alma não saram assim... Nem importam: são omissas nas fotografias.
escrito por Tati 08:36
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Hajime Sorayama
Uma fotografia. Tua. Um tempo que já era nosso. O local conhecido. Rostos de amigos a enquadrarem o teu. Um registo do acaso.
Foi quando te vi. As impressões de momentos do «ser» podem ser perversas. Exibem mais que a expressão. Podem verter alma. E a tua escorria, humedecendo-me os dedos que tremiam. Era um estranho que ali sorria. Os olhos semicerrados, o cabelo mais comprido não faziam a diferença. Era a consciência do momento roubado. A ti.
Minutos antes havias falado comigo. Depois também. O telefone aproximando lonjuras. Não feitas de quilómetros. Antes de sentimentos distintos. Aquele que me falara não podia ser quem ali se exibia num bem-estar genuíno. Não que to condenasse - o amor não é egoísta - mas por haver um abismo entre o discurso e o sentido que a fotografia eternizou.
Quem és tu, afinal? Em quantos te desdobras que eu não sei? Como coexistem eles? De alguns conhecia os sinais, outros adivinhava-os e havia os que ignorava. Confrontei-me com um destes. Denunciou-te. Traiu-te e traiu-me. E ao conhecê-lo, despedi-me de ti. Em silêncio. Como quem derrama sobre si um cálice de veneno. Ou desliga um interruptor e abandona à escuridão um espaço familiar. Para não mais voltar.
escrito por Tati 08:18
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Dave Nestler
Inverno bem português este... Seco e soalheiro. Céu azul invejado pelos europeus do norte, limitados pelas sete horas de luz e muito mais de sombra que somam as vinte e quatro. Num dos raros dias sem chuva miudinha ou grossas bátegas, a claridade no pino do dia, de tão pálida, não ofusca a portuguesa luz corpuscular e invernosa. Povos contidos no exterior e de gargalhar solto nos pubs acolhedores, após uma ou duas bebidas. Afáveis, confiantes, descomprimindo do dia árduo e dos uivos húmidos do vento.
De há anos a esta parte, fora as injecções de auto-estima do Euro e do Rock in Rio, o povo português fez da lamúria vício. Não tem dinheiro, nem emprego, tão pouco futuro. Os serviços públicos dizem-nos maus, as auto-estradas são pagas, a gasolina custa os olhos da cara, redes de apoio ao cidadão mal paridas e quem pode ou sabe vai prevenindo o vulgo de ser esperado ir tudo de mal a pior.
Pertencemos à Europa. Bloco desenvolvido e forte neste mundo bipolar. Alguns de nós provam a excelência. Asseguram que ser português não é defeito genético. Se até a meteorologia e a geografia estão do nosso lado, que lassidão nos move? Que desesperança estrangula o ânimo? Que perda nos enluta?
Passe a arrogância, presumo ser fácil parte da resposta. Se atavismos há de que padecemos e nos mancham de cinza os dias, julgo que a classe política, dirigente e/ou bem-pensante ao pugnar por interesses pessoais ou corporativos em detrimento do bem-estar dos concidadãos, destes assinou o divórcio. E não cuidou de lhes aliviar sustentadamente a vida.
Umas semanas à frente e teremos eleições. Sem honesto consenso entre as forças políticas dominantes quanto às alterações indispensáveis a um novo rumo para o país e para o povo. Na ausência desta prova de lisura e com antecedentes de troca-tintas, o povo português desacreditou os que podem ter acesso ao poder. Descrédito sem cor partidária. Mas votaremos. Alguns. Poucos, se o fanatismo militante não aturdir. Para quê? Para nada, sabemos todos. Até passarmos da neutralidade de dias descoloridos ao desespero irracional.
escrito por Tati 09:29
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Janeiro 18, 2005
POSTAIS
Autor que não foi possível identificar
Alguém os convidou para jantar. O casal chegou à hora marcada com um filho de cinco anos. A conversa em inglês colonial tornou-se picante. Resolvem retribuir o jantar aos anfitriões com um digestivo na sua casa.
Os sapatos ficaram à porta. Na Holanda é assim. A criança vai para a cama, o marido serve as bebidas, põe música africana, baixa a luz em gestos estudados, repetidos. A mulher desce as escadas em passos de dança; um lenço verde atado à cinta é tudo o que traz. Ela, ninfomaníaca; ele voyeur. Dão-se lindamente. Estão casados há dez anos.
Texto escrito por JG
CORREIO SENTIMENTAL
Autor que não foi possível identificar
«O outro(a) que triangula uma relação desejada como linear. A angular o segmento de recta que deveria unir um casal. Culpas, sofrimento, ignorância. O vértices permutados de uma geometria indesejada.»
Quando juntos, o tempo desfilava em correria impetuosa. Naquele dia, a suavidade com que se saboreavam foi substituída pela pressa. Ao fecharam a porta, o afastamento forçado e temido a que haviam sido forçados obrigou-os a uma procura voraz. Os corpos misturaram-se, deles se servindo numa urgência desusada para penetrar no mais íntimo do outro. Como se o conhecido fosse insuficiente na busca do recôndito, daquele obscuro lugar em que se alojava a majestade do sentimento que os ligava. E da ansiedade em que se haviam esperado e no sarar de dolorosas verdades que ambos silenciavam.
O tempo deslizou rápido como um pardal e escorregadio como um peixe. Por sussurros, os diálogos sucederam-se à feitura do amor. Tendo certo o isolamento, era reforço da cumplicidade o murmúrio das ideias, enquanto o calor dos corpos unidos embaciava outras sensações. Recolhidos do mundo. Remetendo a realidade que os constrangia para lá do abrigo escolhido.
O telefone toca. Ele sabe que ignorar não é possível. E atende. Ela afasta-se, discreta, tentando iludir o óbvio: qualquer privacidade seria anulada pelo limite do espaço. O desconforto do momento não permitia gestão que a racionalidade dominasse. E o "então amor, que se passa?", a intimidade sequente, o quotidiano ali exposto, a normalidade de uma vida de que eles eram a margem inflamou o momento. O «amor» num segundo permutando o endereço.
O regresso foi mudo. Nenhum dos dois sabia ser capaz de uma desculpa ou de ouvir uma explicação. Não ignoravam estas ou outras armadilhas que a clandestinidade sabe urdir. Porém, quando a verdade aniquila o mundo de fantasia, é ebuliente o caldo emotivo. Afastaram-se com um breve toque dos lábios e das mão subitamente geladas naquela noite de Inverno.
escrito por Tati 08:53
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
TRETAS ESOTÉRICAS
Autor que não foi possível identificar
Sete anos demorou o Huygens a chegar a Titã. A atmosfera espessa desta lua de Saturno forneceu o atrito bastante para suavizar a gravidade e permitir que os pára-quedas do módulo se abrissem em corola numa descida protegida.
Sete semanas demoraste até chegar ao que sou. Dispensei o invólucro defensor que me resguarda dos afectos não procurados e a atracção foi súbita. Revolvendo emoções e sentidos.
O contacto com esta lua de atmosfera tida como similar à da Terra nos primórdios da vida foi planeado para que o acaso ou a má roda da fortuna pouco pudessem intervir. A velocidade do módulo atenuou-se na proporção inversa da proximidade. Só depois de processadas as informações do contacto, foram transmitidas à Cassini. Delatora como lhe cumpria, retransmitiu os megabits de conhecimento à Terra. E foi o aplauso, a esperança confirmada nas capacidades dos humanos.
Não houve estratégia no nosso contacto. Quando mergulhámos olhares e sentimos do outro a pele, foi o silêncio. O diálogo surgiu depois. Antes tinha sido a ansiedade pelo encontro esperado. A espiral das interrogações que não cessava de aumentar, o coração descompassado, as expectativas que em vão tentávamos anular. E do acontecido fizemos silêncio para os outros. Como se partilha que não mútua atraiçoasse o momento.
Dizem a atmosfera da Titã contendo a substância elementar que também constitui a da Terra - azoto. Matéria inerte essa... Igualmente sujeita a relâmpagos e revelando propriedades eléctricas. Até a chuva se configura possível, sendo que o metano será o gás liquefeito e não o vivificante vapor de água.
De ambos conhecíamos as semelhanças e adivinhávamos diferenças. Sabíamos não desejar afectos voláteis nem condensações aleatórias de precárias fantasias. Não ignorávamos as tempestades em que nos enredaríamos. Alimentava-nos o fluido intenso que entre a pele e o espírito e o olhar permutávamos. Nunca inertes perante o outro. Sempre electrizados pelo espírito de que nascia o desejo. Ou o contrário...
Nos anéis De Saturno descobriram ondas que entre eles se propagam. Sem explicação completa.
Constatámos sermos juntos pessoas melhores. E compreendemos que num afecto puro é esperança a irradiada. Nunca a procurámos explicar. Apenas deixamos fluir.
escrito por Tati 10:53
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Janeiro 16, 2005
AÇÚCAR
Autor que não foi possível identificar
A ternura não se declina apenas no feminino. As mentalidades evoluíram e o lado feminino do homem não é já sistematicamente negado. Por outro lado, é o vagar para a ternura a escassear nos dias que correm. Uma sociedade de pressa e competitividade, de virtualidade das relações não valoriza o "leite da ternura humana" de que falava Shakespeare.
É dado adquirido que o contacto táctil harmonioso entre a mãe e a criança iniciam sob bons auspícios o desenvolvimento desta, a sua autonomia e, até, o seu desenvolvimento sexual. Porém, entre adultos esquecemos que esse fluido terno, transmitido com a verdade que lhe dá leveza, pode igualmente fazer milagres no equilíbrio psicológico de quem dá e recebe.
As mulheres queixam-se da escassez de ternura dispensada pelos seus parceiros. Estes reservam-se, não vá um «deslize» ternurento ser tomado por comportamento menos viril. E mostram essa mesma ternura por gestos discretos - um telefonema de preocupação se acordámos menos bem ou outra atitude de semelhante teor. Porque a ternura requer tempo e é preciso saber encontrá-la nos gestos em que se aloja.
Em qualquer etapa da vida, uma carícia, um gesto meigo e atento são decisivos. O toque que permuta calor e pele é preciso. Mais ainda se julgamos que não.
escrito por Tati 15:01
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Janeiro 15, 2005
POSTAIS
Jennifer Janesko
Tinham saído os quatro muito desiludidos da discoteca Adam´s Apple na esquina da 1ª Avenida. Era terça feira. No início da 53th decidiram tomar uma última cerveja. Entraram num Singles Bar.
"Atravessei o Atlântico só para te vir ver", disse ele à ruiva de longa cabeleira, sozinha no canto do balcão. A primeira parte da frase era verdade, a segunda não passava de uma desastrosa tentativa de engate. Ela olhou-o com desdém e virou-lhe as costas. "Desculpa se me atrasei..." continuou irónico e preservando, viva, a imagem do macho latino. Ela compôs um ar de desdém.
Desistiu e continuou a conversa interrompida com os colegas sobre Herbert Marcuse, Allen Ferlinghetti e Jack Kerouac. "Desculpe...", disse ela, "eu estou a escrever um livro Looking for the Unicorn. Como é que disseste mesmo que te chamavas?" "Não disse", respondeu ele. "Pois...", continuou ela passando-lhe suavemente a mão nas costas, "mas quero que fiques comigo esta noite!"
Texto escrito por JG
escrito por Tati 17:56
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Janeiro 14, 2005
IN & OUT
Autor que não foi possível identificar
Agentes da autoridade. Não os que se inserem em corporações de ordem ou segurança pública - GNR ou PSP. Refiro-me aos que de algum modo todos nós somos: políticos, magistrados, professores, cidadãos ou pais. A todos é pedido o exercício da autoridade. Sem caírem no autoritarismo arbitrário.
Autoridade faz bem à saúde. Física e mental. Alicerça-se no exemplo; orienta e protege; o autoritarismo confunde e revolta. A autoridade vive do «faz aos outros o que aprecias te façam a ti»; o autoritarismo do «olha para o que digo e não para o que faço». A autoridade ouve, analisa e está atento aos que nela confiam; o autoritarismo é autista. A autoridade é bom senso: o autoritarismo é vaidade que apouca. A autoridade é árdua; o autoritarismo é fácil.
Na confusão entre conceitos tão distintos chafurdam muitos dos que a autoridade têm como mister. E menos pela trapalhada em que caem e fazem outros cair, mais pelos maus exemplos que deixam como rasto, tornam-se foragidos da razão sensata. Dignos «fora-da-lei».
escrito por Tati 17:22
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
POSTAIS
Eleine Harry
Por uma questão protocolar ele foi o "date" da filha do Presidente da Câmara no baile anual de Walvis Bay na Namíbia. A partir daí, ela tratou-o como um príncipe: mostrou-lhe o voo dos flamingos no Kalaari, a caça ao leão à noite. Tentou fixá-lo ali. Ele foi correcto e não lhe escondeu nada.
Três meses depois, ela mete-se num avião, faz 6000 kms e toca-lhe à campainha. Ele relembra-lhe que é casado e tem um filho pequeno. Ela explica-lhe que na terra de onde veio desde pequena lhe ensinaram a lutar por aquilo que deseja. Persuadiu-a a regressar. Um beijo de adeus na plataforma 1. O comboio partiu para Sul.
No mesmo minuto, na outra linha, um comboio chega do Norte. A esposa sai e dá-lhe um beijo de «olá» na plataforma 1. Ele fica estático, em choque, entre um olá e um adeus (ou ao contrário?).
Texto escrito por JG
LOOK
Autor que não foi possível identificar
George Sand nasceu há pouco mais de duzentos anos. Celebrá-la é reavivar a questão das fronteiras entre géneros. Numa época em que a androginia é um facto assumido na moda, na postura social, na arte na literatura, o cruzamento entre os sexos nunca foi tão longe. É consensual o comportamento dos homens rotulados como metrossexuais, um «conde» inclassificável quanto ao género vence um concurso que arrebatou audiências e a exclusividade dos papéis sociais de um ou do outro sexo está em vias de extinção.
Sand explica em Histoire de ma Vie como decidiu a vestir-se de homem ao iniciar a sua carreira literária em Paris. Desejava perder o que ela considerava provincianismo e mergulhar no luxo intelectual parisiense a que não se adequavam os parcos recursos e a sua condição de mulher. Um redingote-guérite (casaco comprido masculino usado em 1830), calças e casaco a condizer, encimados por um chapéu de copa alta e alicerçados numas botas revestidas a ferro, permitiam-lha que uma tertúlia, um teatro ou o simples caminhar sozinha nas noites de breu não fossem impossibilidades a excluí-la de intensos prazeres.
Mulher de fortes paixões, seduziam-na homens frágeis: Musset e Chopin, entre outros. É nas relações de Sand com estes dois homens que Balzac se inspirou ao criar a ilustre hermafrodita Felicité de Touches e a heroína de Cousin Bette. Não se resumiu a Balzac o fascínio da sua personalidade. Ao criar um tipo de mulher-poeta/escritora fragilizou as fronteiras entre os géneros literários e influenciou os intelectos da época. Elizabeth Barrett, mais tarde conhecida como Browning, celebrou-a. Podemos acusar Sand de algum pendor panfletário, mas nunca de demitida da vida ou das interrogações a que obriga existir com consequência.
escrito por Tati 11:49
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Autor que não foi possível identificar
Um homem e uma mulher. Um encontro, um futuro, uma vida. Este é o princípio monogâmico da Igreja Católica. Essa foi a referência que moldou inúmeros homens e mulheres acima dos trinta anos, ainda que testemunhas da ruína do casamento dos pais.
Não se ama nem se deseja uma só pessoa durante toda uma vida. É isso que faz da monogamia uma relação humana particularmente exigente. Se nos alvores da juventude todos sonhamos ser contemplados com o primeiro prémio no totoloto das relações maritais, a vida vai ensinando que nem todo o génio ou entrega ou intensidade ou tolerância nos põe a salvo de uma relação falhada. Nós mudamos, o parceiro muda, as necessidades individuais desencontram-se, os interesses divergem. E vem o fim, fica a dor, nasce uma ilusão, mais tarde um recomeço, depois o cepticismo até aprendermos a valorizar o que por tão miúdo mal notamos no quotidiano com outra pessoa, porém tão securizante e envolvente.
Se as inclinações evolucionárias de quase todas as espécies chocam de frente com uma ligação sexual e social única, as várias religiões dividem-se para convergir num único sentido. O Cristianismo marca o Ocidente com a monogamia, o Islão permite a poligamia em certas circunstâncias e o Corão admite quatro esposas. Nenhuma permite a poliandria. Constituem-se como redutos da máxima - "eles podem, elas não!".
escrito por Tati 08:57
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Janeiro 11, 2005
CORREIO SENTIMENTAL
Autor que não foi possível identificar
«Venusianas e marcianos têm códigos de linguagem diferentes. Para quando a Torre de Babel que facilite o entendimento?»
É ponto assente que entre nós e eles a comunicação verbal tem escolhos insondáveis. Falamos em alhos e eles respondem-nos em bugalhos. Ora o que dizemos requer tradução que, não constando dos dicionários, os faça entender exprimirmos nós emoções, sentimentos, pensarmos tão somente em voz alta, enquanto eles têm na palavra um veículo de informações como súmula do racionalizado.
Algumas frases tipicamente venusianas e respectiva tradução marciana:
"nunca dizes que me amas" - estou frágil, carente, faz-me sentir querida e desejada;
"precisamos de conversar." - que venha alguma adrenalina tirar-nos do marasmo em que caímos, que me inflame a reconciliação esperada e confirme a intensidade do meu afecto por ti (esmiuçar, dissecar a relação, faz parte de nós; para eles ou funciona ou não. Tão simples quanto isso!);
"nunca mais te quero ver!" - estou magoada, triste e muito infeliz (adoramos superlativos, generalizações e outras liberdades poéticas);
"andamos às voltas há uma hora. Porque não perguntas o caminho?" - reconhece o engano e deixa-te de bazófias, já que a mais não és obrigado;
"não saias, fica comigo..." - convence-me da tua razão. Se ficares só pelo meu pedido, mais vale saíres à mesma. A cedência empobrece o gosto.
"não achas que estou mais gorda?" - reafirma o teu desejo e prova que as minhas inseguranças são ociosas;
"não és capaz de me entender!" - porque não pões a intuição ao meu serviço ou, na ausência dela viras feiticeiro e me adivinhas?
As de Vénus e os de Marte foram pensados(?) para viverem juntos. Aprender a linguagem deles e ensinar-lhes a nossa é jogo que alicia. À partida, está tudo ganho. Importa continuar a jogar.
escrito por Tati 12:10
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
TELEGRAMA
Quando um gesto ou uma voz afectuosa nos devolve alguma da serenidade perdida, há um ganho súbito de energia que apetece soltar. Então, e não!, não é intenção recente de Ano Novo, um hábito antigo surge, por milagre, como inédito e fonte de infinito prazer. Por isso entardeci assim...
Keith Garv
... tirando partido do corpo no ginásio conhecido, mas com gozo redobrado.
BOM CHIC, BOM GENRE
Lorraine Shemesh
A verdade passou de moda e não consta das normas de etiqueta. Mentir tornou-se numa aceitável gestão de recursos. Mentiras. Despudoradas, veladas, subtis, piedosas, perversas, defensivas. Com fluidez ou enrubescimento, com engenho e arte ou desajeitadas. Despachando um momento incómodo. O nosso íntimo oscilando entre a culpabilização e a habilidade de arrumar incómodos. Hesitando entre a autoflagelação e o aplauso.
E mentimos por tudo e por nada. Por hábito, por medo, por arrogância, como fuga, para seduzir ou afastar, por generosidade ao evitar a humilhação de outrem, para nos (re)inventarmos e transfigurarmos no ser que o nosso imaginário criou. Mentimos porque a realidade é demasiado penosa ou mesmo brutal. Mentimos para salvaguardar o precário equilíbrio feito fio tenso em que o psiquismo a cada instante resvala.
Pode haver inocência na mentira. Quando nela nos enredamos por medo. Pelo maior dos medos - não sermos aceites tal qual somos. Movidos pelo pânico da rejeição, pela tragédia de ver ruir pontes entre nós e os outros. Porque nos vemos feios. Por não haver aceitação no olhar que a nós próprios endereçamos.
A mentira passou a ser a versão aceitável da verdade ubíqua. Perniciosa. Cruel. Mentimos como estratégia de sobrevivência. Como colete de salvação que nunca tiramos e insuflamos ao menor sinal de perigo. Sem apito que nos denuncie. Apenas e tão somente um modo de flutuar na vida.
escrito por Tati 09:28
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Janeiro 09, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Autor que não foi possível identificar
Não é imediato o reencontro com a parte de nós que nos aguarda, quieta e em silêncio, num regresso. O olhar vem contaminado por uma realidade tão distinta que nem o estremecimento do contacto súbito do avião com o solo familiar permite limpar. Amanhecemos num espaço que sabemos nosso, contudo ainda distante. E o costume vai surgindo em gestos automáticos que julgávamos esquecidos. A provarem-nos que somos, como qualquer ser vivo da criação, feitos de hábitos alojados longe da consciência. É o oculto da racionalidade que se adianta gerindo comportamentos. O resto vem depois. Num vagar que a mente agradece e o corpo precisa. Como limbo e planar intermédio entre o que somos e o que sendo fomos.
IN & OUT
Autor que não foi possível identificar
Um traço de carvão na brancura espessa do papel. Óleos brilhando viscosos na paleta a permitirem policromia orgástica. A tela virginal aos poucos desflorada pela intencionalidade que faz deslizar o pincel. A adrenalina subindo impulsionada pela incerteza de conseguir dar forma à emoção.
A palavra. Uma atrás da outra em torrente que a razão contém. E resume a curso de rio disciplinado que desagua num texto. Comunicação, ou apenas registo do solitariamente sentido ou pensado.
Os «movimentos» na arte pictórica ou da escrita são volúveis. Mais impressivos uns que outros. São documentos que biografam um tempo - aquele em que se inseriram. Depois, há o carácter evolutivo de tudo o que é humano. Em qualquer movimento artístico há os que o determinam e movem e os que nele se inserem por espírito mimético, nada acrescentando ao já feito. Contudo, seja qual for o tempo é tempo de criação.
Talvez por achar que traço e palavra se conjugam e tudo têm a ver, é igual o meu gosto por um e outra. E deles não desisto. Um rabisco ou jogo de pinceladas inspiradas pode traduzir, com maior economia de meios e eloquência, um texto. O que importa é dar ao íntimo - aquilo a que tantos chamam espírito - oportunidade de ver luz e deixar impresso o testemunho. E quem se habituar a gastar tempo consigo, no sentido de fruir da própria razão na análise de si e dos outros, a deles fazer exercício pela escrita, desenho, pintura ou por qualquer outro modo escolhido, adquire distanciamento e armas no combate eficaz à solidão. Porque na ausência de tudo há o íntimo por companhia. Basta dar-lhe oportunidade.
escrito por Tati 10:28
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Janeiro 01, 2005
PEREGRINANDO
Jesh
Gosto do que é sazonal. Não me seduzem destinos magníficos se sol e mar são ingredientes principais, quando é o frio que no momento me regula a biologia. Do mesmo modo, muito é preciso para prescindir dos dias cálidos de estio em favor de um roteiro arrefecido.
Este é o tempo da neve, das montanhas e dos abetos, do gume do vento na face, do nariz frio, das luvas, gorros e cachecóis, das botas e meias de lã. Tempo em que a Natureza erguida centenas de metros acima do mar se enfeita com pingentes de gelo nos muros e ramos e me chama num assobio de vento. Estes são os dias encurtados num anoitecer precoce, apelando à fruição do fogo emotivo e da lareira.
Noites dolentes e aconchegadas de prolongada vigília, madrugadas de corpo abandonado ao sono e à fadiga. E quando a manhã cresce não assusta o frio que pela janela se agiganta no cintilar do gelo; antes pede o desafio de medir forças ao deslizar veloz pela neve e pela vida. Assim serão os meus próximos oito dias.
Que se inaugure o ano cumprindo o desejo de autenticar com o selo da verdade interior cada momento vivido e a alegria possível num planeta em luto.
escrito por Tati 12:17
Veneno ou Açúcar?

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