Sem Pénis, nem Inveja
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Veneno... com Açúcar!

pseminveja@hotmail.com

ARQUIVO

ADOÇANTES
4a ferida narcísica
Aba de Heisenberg
A causa Modificada
Adufe
A Loira
A Praia
A vaca louca e o seu badalo
Abrigo de Pastora
Abrupto
Aviz
A tasca da cultura
Almocreve das Petas
Barnabé
Blasfémias
Bomba Inteligente
Causa Nossa
Cotada em Bolsa
Destreza das Dúvidas
Escrevo Apenas
Espécie duma coisa qualquer
Exacto
Fata Morgana
Fotografia
Homem a Dias
JPC
Katraponga
Mar Salgado
Mau Feitio
Novos Voos
O Solipsista
País Relativo
Passo a Passo
Poligrafia
Primeiro Ministro
Prosa Solta
Puta de Vida
Rua da Judiaria
Ser Português
Sex In Lisbon
Sobre Tudo e Sobre Nada
Torneiras de Freud
Troblogdita


Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005


TROCAS E BALDROCAS


J T Witnic

Devolver o optimismo aos portugueses parece ter sido uma das «viranças» (invenção de Manuela Drago na noite eleitoral) que decorreu do voto dos portugueses. Convocar o sorriso para a vida obriga a razões. Que não tem havido. Desde que foi perdido o rei-menino em Alcácer Quibir, o síndroma da orfandade não mais nos abandonou. O Nuno Rogeiro afirmou que a diferença entre o Portugal e o Brasil é a distância entre o fado e o samba: o primeiro pinta de negro quase tudo, até a felicidade do amor, o segundo faz as gentes rir da própria miséria.

Enquanto povo, dispensamos rezas, mezinhas, exorcismos ou divãs de psicanalistas. Não estamos «possuídos», os diabos não dançam o «corridinho» no nosso corpo, tão pouco somos vítimas de magia negra. Para esconjurar a tristeza basta o sentimento de sermos guiados com lucidez, dedicação e competência. Não por um deus salvador - já passámos pelo filme do pai-tirano e não deu para rir (caricaturado na tela e como comédia de costumes, aí sim!, arrancou gargalhadas). Dispensamos providências terrestres, mas exigimos que alguém dê sentido à responsabilidade e vontade férrea que também temos.

Se até agora simulámos venda nos olhos ao laxismo, é chegado o tempo de os arregalar. Vigilância, denodo e trabalho como coordenadas. O sorriso? Virá depois.


Veneno ou Açúcar?



Domingo, Fevereiro 27, 2005


POSTAIS


Stephen Youll

A meio do Atlântico, o quarto (período de trabalho de 4 horas) começava às quatro da manhã. Desceu a custo a escada da casa da máquina até ao piso inferior. 96% de humidade relativa, 44º centígrados. O ruído monocórdico da MAN de 10 mil bhp chegava aos tímpanos como se não tivesse colocado amortecedores de ruídos nos ouvidos. Ainda há instantes a dormir profundamente no conforto do ar condicionado e isto assim de repente... Experimenta alucinações auditivas como nunca tinha sentido. Coros de música sacra com a nitidez de quem está num claustro. Tentou desvalorizar a partida do cérebro.

Cinco dias depois, fundeado ao largo na Baía de Luanda. Sempre a mesma palavra que não lhe saía da cabeça: Matadi. Mas que diabo será isto? Porque não deixa de zumbir esta palavra?

O «Chegador» desce a escada, as mãos correndo no corrimão, pés no ar e escorrega até ao piso da sala de controle: "Sr. Segundo!, Sr. Segundo!, vamos para Matadi!" Sentou-se, rígido, na cadeira giratória: estava a começar a ter premonições.

Passados dias, a cena repete-se; desta vez Vladivostok. Nunca lá foi. Crê poder dormir descansado.

Escrito por JG


Veneno ou Açúcar?



Sábado, Fevereiro 26, 2005


IN & OUT


Laguire

O Eduardo Sá afirma existirem dois tipos de pais: os dos grandes gestos e os das pequenas coisas. Os primeiros são protectores sempre que o perigo espreita, preocupam-se, adiantam soluções. Os outros somam à infinita generosidade a interpelação dos nossos silêncios e lêem as hesitações mais subtis. Não têm a solução para os nossos problemas, mas vivem-nos connosco. Sem grandes gestos, a família nada mais é que um conjunto desligado; são as pequenas coisas que permitem aos pais tornarem-se a cada dia melhores.

Quando não desistimos de procurar ao longo da vida grandes gestos que nos protejam, a família será sempre um «presépio». Podemos ser o marido ou a mulher, mas não prescindimos da condição de «menino jesus». Se buscamos as pequenas coisas, retocamos a vida toda o mesmo «presépio». O marido ou a mulher que escolhemos são fantasiados como substitutos dos pais. Corremos o perigo, mesmo se gerámos outras vidas, de fazermos sempre de filhos. Idealizando um parceiro que nos leve pela mão e adivinhe. Ora, quem nos ama espera amor adulto e livre. Diferente do amor filial. Libertador para sermos agora os protagonistas das pequenas coisas e dos grandes gestos.


Veneno ou Açúcar?



Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005


TELEGRAMA


Olivia de Beradinis

"De certa maneira, este novo primeiro-ministro representa para a política portuguesa democrática, aquilo que representa para o jazz o disco de Miles Davis - The Birth of the Cool."

Miguel Esteves Cardoso na Sábado desta semana.

TROCAS E BALDROCAS


Julie Bello

Há quem adira entusiasticamente às últimas novidades tecnológicas: GPS e écrans XS no automóvel, plasmas XXL para o serão, material informático dernier cri e telemóveis acabadinhos de sair do forno. Com a fatal câmara e inúmeras funções. Tudo muito eficiente e a pretender um estilo: trufas só frescas, champanhe sempre Cristal Roederer, saldos em Londres e férias nunca na pepineira do Agosto algarvio. Ou então a versão mais simples: "o que «está a dar» é a minha perdição."

Não discordo nas trufas, no champanhe ou nas férias, sou indiferente a recheios do tablier e evito ver agigantados alguns seres que mesmo pequenos me desagradam bastante. Os telemóveis com câmara é rejeição pura e simples. Nunca, jamais, never, mai.

Mente caridosa e de notável pragmatismo alertou-me para os danos gravosos causados por tais objectos. Se não, vejamos: era suposto por razões estritamente profissionais ele ir num «vou ali, volto já» a uma Universidade ignota da Europa. Porque se lamenta do tédio que à distância sofre, ela pede imagens da cidade que o acolhe. Já alguém pensou na dimensão do prévio trabalho de pesquisa e recolha de fotografias a memorizar no telemóvel? Ainda por cima todas muito profissionais quando é sabido ele ter tendência nata para cortar pés e cabeças.

Por estas e por outras, do cúmplice que trago na mala, espero o básico - voz, mensagens, toques sem fantasias surreais, memória qb. Nunca espionagem por conta de outrem a condicionar a liberdade.


Veneno ou Açúcar?


AÇÚCAR


Bob Rothemberg

Não quantifico a minha dose de amor diária. Se é anormal ou não. Nem isso interessa. Sei do que preciso e estou disposta a dar. E há amores mais ou menos preciosos. Todos únicos, porém uns mais indissociados do que sou que outros. O amor pelos pais é um deles.

Olhar o pai e senti-lo afundar o olhar no meu iniciando um diálogo que dispensa palavras, é confirmar o elo antigo de segurança e conforto. Gosto de o ouvir respirar ao meu lado enquanto intervalamos palavras e silêncios cúmplices. Gosto das nossas «bicas» bem cheias e respectivos copos de água. Do sorriso maroto ao dizer - "Pois, eu ponho açúcar e tu não... Só isto e o Pinto da Costa nos separa..." Gosto que ele pague os cafés e me dê a ilusão de um regresso à infância doce e protegida. De seguida, sou eu que ajudo dispensando-o de pesos que o seu coração mártir não suportaria. E damos as mãos. Tantas vezes e ainda...

Com a mãe o amor é feito de dádiva, como deve ser um amor, mas carece de liberdade. O olhar censor que a sociedade e o tempo afinaram nas mães para bem educar uma menina rebelde e curiosa como eu, deixou rasto. Do muito que me deu e dá, também. Do legado de atenção, carinho e presença preservo a memória que procurei, já mulher, transmitir. Ensinou-me dotes de naturalidade e encanto, elegância, esmero no estar e afabilidade que a descrevem. Sem impingir, deixou que o exemplo me transmitisse a arte do apuro doméstico, do gosto pelo espaço a que chamamos nosso, do gozo de condimentar uma refeição com a intensidade do afecto. Dela retive o prazer de mesas bonitas, minuciosas, animadas por cor e o brilho. Dos pequenos almoços servidos numa mesa em tons de sol a inaugurar bem o dia.

Hoje, ao ver os pais frágeis, é a tristeza e a saudade que me ensombram o olhar. E obstino-me na atenção aos respectivos gestos e tiques de sempre. Quero preservá-los intocados. Quero gravá-los, desafiando a borracha com que o tempo, um dia, tentará apagar o ido.


Veneno ou Açúcar?



Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005


VENENO


Anthony Guerra

Qualquer momento eleitoral dá pano para mangas. Muitas. No balanço que o segue, alguns esmeram-se em «ses» e «porquês» sérios e fundamentados (?). Prefiro o lúdico da coisa que me garanta sonora gargalhada. Desde há tempo que as inenarráveis reportagens de rua das televisões manifestam queda para entrevistados de dentição irregular. Em muitos casos esburacada, noutros leporina ou com caninos impetuosos.

A noite de domingo, na euforia da vitória ou na deprimida derrota, foi pródiga em imagens desdentadas. Sem dúvida, deve ser a gente real do país real que eu julgava realmente ser o único existente. Mas não, dizem que não, que há outro. Que deve ser tão desdentado quanto este. Ou talvez não, se houver dinheiro e paciência para implantes. Que não há. Logo, desdentado.

Um amigo assegura que ao ser humano bastam dois dentes: um para morder e outro para doer. Remoí esta máxima e concluí que as crateras na boca dos portugueses devem associar-se à magnanimidade do nosso sistema de saúde: cuida que restem os dentes essenciais para o entretenimento de «morder» a vida alheia. E quantos menos dentes houver, menos há para doer e... tratar. Está bem visto! Eles Pensam em tudo.

Bocas entreabertas num riso de luminosa brancura só no país virtual. Por isso, o outro, o real, se ri tão pouco. Se não for abuso, com a mão tapando a boca. É fineza que agradecemos.


Veneno ou Açúcar?



Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005


IN & OUT


Greg Horn

"To fall in love". Numa tentativa de explicação a Física poderá apoiar-se nos fenómenos eléctricos e magnéticos, a Química estudará as estruturas moleculares que a Biologia identifica, a Matemática dará uma mãozinha através das construções específicas. Porém, Einstein avisou: "a gravidade não pode ser culpada pela pessoa que fall in love".

Andamos precisados de formação científica e este ano foi declarado Ano Internacional da Física. Protagonismo merecido, malgré a actual tendência para comprimir e desvalorizar a Química entre a Biologia e a Física. A Matemática, por não necessitar de suportes além da mente para continuar a reinventar-se, tem lugar independente e destacado, já que do raciocínio lógico e abstracto que explora vão nascendo ferramentas que mais tarde as outras ciências usam. A Química - mau fado pela certa! - passa a vida espalmada entre engenheiros, físicos ou economistas.

Quem tem a sorte de penetrar e encontrar infinito prazer no jogo mental da ciência, apaixona-se. Paixão não tão distinta assim das demais. Pode ser obsessiva, exacerba a imaginação, monopoliza o pensamento, faz oscilar entre a felicidade da explicação súbita ou o desespero da investigação falhada. Paixão extremada como todas. Distingue-a a durabilidade: meses ou anos não a esgotam.

Estando o campo gravitacional terrestre arredado da razão que leva alguém "to fall in love", a Física e a Matemática mergulham na explicação via campos electromagéticos ou jogos de probabilidades, a Química com a Biologia afundam-se em «inas» - endorfina, dopamina e ocitocina. Enquanto isso, os apaixonados «estão nas tintas» para a ciência. Olham-se nos olhos, juram real a desmesurada tensão em cada toque ou beijo que os arrepia, mantêm-se cegos, surdos e mudos a tudo que não se esgote neles. E são felizes. Eles lá sabem.

Nota de rodapé - Desde que o Paulo Portas afirmou perante milhões «estar nas tintas» para juízos maldosos, acho que a expressão ganhou estilo, pedigree, sei lá!...


Veneno ou Açúcar?



Terça-feira, Fevereiro 22, 2005


BON CHIC, BON GENRE


Lorenzo Sperlonga

Vem aí a proibição de fumar em locais públicos. Para muitos será um alívio verem-se livres do fumo dos dependentes da nicotina. Para estes será um atentado não só ao vício, mas a uma das mais antigas e eficazes técnicas de abordagem. A espera do voo num aeroporto, uma bebida num bar, a obscuridade da discoteca, o atraso de alguém para um jantar que o enfado aguarda, o dolce far niente na praia, perderão muito da aventura possível se a referida proibição vier a concretizar-se.

A chama de um isqueiro incendeia libidinosamente o cigarro de quem tem tudo para entreter o tédio e, quiçá, constituir novo registo na lista dos momentos saborosos. À partida, a fumaça é dado comum a permitir explorar outras afinidades. Todas juntas a convergirem na irmandade das almas. Cada baforada permite pose de silêncio e reflexão na resposta, fatalmente sedutora se lhe for somado olhar matador e voluptuosidade. A atmosfera nublada e a condição comum de proscritos do politicamente correcto é, por si só, prometedora de novas intimidades.

Indo avante a proibição, o relacionamento social sai, numa primeira fase, prejudicado e com sérias consequências na economia nacional - as etapas seguintes a qualquer «engate», jantarinhos, motéis e hotéis, serão suprimidas. Contudo, criativos como somos quando «desenrascar» é preciso, não nos deixaremos abater. O institucionalizado «engate» permanecerá imune a pressões.


Veneno ou Açúcar?



Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005


ACQUA_R_ELLAS


Rchard Baxter

Um casamento e dois funerais. Assim foi a semana que passou. O princípe deixou-se de contos de fadas serôdios e optou por legalizar um amor que, após trinta anos, se assemelha vagamente a um rottweiler (a casa real britânica sempre foi entusiasta da caça e dos canídeos!). A morte e o funeral da Irmã Lúcia emocionaram muitos milhares de católicos. Parte deles cresceu com a referência das visões de Fátima como o mais perturbador milagre em Portugal. No rodopio do sol precipitando-se sobre uma multidão estupefacta muitos beberam a dose de sobrenatural de que precisam para um real sem história. Até hoje. A clausura, a morte prematura dos primos pastorinhos e os "segredos de Fátima" tornaram mítica uma mulher simples que fez vida da contemplação.

O segundo funeral foi o remate para uma agonia insuportável. A coligação sufocava e sufocava-nos. Era tão penosa como a respiração de moribundo - só o «fim» seria libertador. E foi. Em substância diferente: o Paulo Portas foi dramático mas coerente, o Santana foi indigesto na prestidigitação: coelhos na cartola, lenços a espreitar das mangas e pombas esvoaçando à volta da cabeça.

A subida da esquerda e a diminuída abstenção legitimaram a dissolução da Assembleia pelo Presidente da República. Foi lúcido ao ler correctamente os inequívocos sinais da sociedade portuguesa. Haja idêntico senso e capacidade de decisão por quem detém agora a maioria absoluta. Da esquerda para todos os portugueses. Que a nossa esperança seja fermento que levede vontades e se traduza em pão do presente e suporte do futuro. Sem rodopios que nos embasbaquem.

TELEGRAMA

O que diz a família do "menino Zezito":

Tia Marquinhas a propósito da ausência de inequívocas promessas socialistas na campanha eleitoral - "Mais vale um «toma» que dois «terei»".

Primo Morgado - "Com ele (José Sócrates) os portugueses vão relembrar o significado de palavras ultimamente em desuso na política - brio e zelo."

Sábias palavras. O tempo dirá se justas.


Veneno ou Açúcar?



Domingo, Fevereiro 20, 2005


TROCAS E BALDROCAS


Autor que não foi possível identificar

Não permito que o dever do voto me transtorne numa maçada este domingo de continuado sol de Inverno. Madrugar num dia de santa preguiça e aviar logo o problema pode causar estado alucinatório se o votante não se prevenir com uma «bica ». No mínimo. Duas é mais fiável. Profilacticamente alivia a perfídia do incómodo e impede o apetite súbito de no lugar da cruz fazer desenho menos adequado.

Transformar uma fila de voto em aperitivo de refeição é pôr em causa um prazer - o fantástico, ritualizado e esmerado almoço de domingo. Nem pensar!

Votar a meio da tarde quando a tertúlia familiar está no seu melhor, só mesmo para desmancha-prazeres. Apetece esborrachar a cara nas sobras da bavaroise. Comigo não contem! Primeiro as devoções, depois as obrigações. Subverter a ordem semanal é gozo de que não prescindo.

Pelo começo da noite, quando todos os gatos são já pardos e o lastro de um soberbo dia me amansou da tormentosa campanha, é o momento. Se pretendermos dar um ar ainda mais sério à coisa, o de «rato de jornais» que esteve até à última analisando razões e programas eleitorais, aconselho: desalinho no visual, sapatos cambados, cabelo descomposto, óculos e o Spiegel debaixo do braço. É quase comovente.

Ah!, é verdade, voto mas não em branco.


Veneno ou Açúcar?



Sábado, Fevereiro 19, 2005


TRETAS QUASE ESOTÉRICAS


Lorenzo Sperlonga

«Contributo para a reflexão da bondade do sentido de voto individual.»

«Iaque!!!», segundo artigo rigoroso, é uma das palavras mais universais. Comum a quase todos os povos, sempre acompanhada de lábios descaídos e nariz à banda. Fraldas de bebés que não os nossos, casa de banho imunda, cuspo ou a dentadura do avô navegando no copo são consensuais na repugnância. O mesmo pode acontecer com fotografias repelentes - algumas lesões da pele, por exemplo -, não sendo necessário que o cheiro acompanhe a visão. Só com esta já nos enojamos assim, assim.

Menos universal parece ser a explicação. Alguns defendem haver sinais de alarme genéticos a impedir-nos de ter como hobby criação de larvas de mosca ou ténias em aquários. Porém, tais sensores de perigo eminente, dizem outros, devem evoluir connosco, caso contrário os nossos filhos não teriam aquela atracção inexplicável pelas pastilhas caídas no chão.

Enquanto quem sabe não se entende, vamos fazendo o esgar da praxe quando o condutor do veículo do lado se entretém a girar o indicador no interior do nariz. Sei de muito boa gente que perante o exemplar aqui de cima não hesita: nariz torcido e "iaque!!!"

Com o voto é o mesmo - analisar qual das campanhas não foi equivalente a rasto de lesmas. Ou qual das propostas é menos parecida com onicomicose aguda.


Veneno ou Açúcar?



Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005


CORREIO SENTIMENTAL


Steven Gjerston

«"Meninos da chave". A solidão acompanhada pela baby sitter sempre a jeito e no momento económica. Os custos? - Vêm mais tarde.

Chegam a casas vazias. Os pais trabalham. O encontro familiar virá pelo final do dia. A chave pende do pescoço escondida pela T-shirt ou à solta na mochila. A escola abriga-os enquanto os pais labutam. Ensina-lhes mais do que as ciências ou as línguas - ensina a vida. A competição, a solidariedade, o egoísmo, a fraude, a amizade, a hipocrisia, o entusiasmo, a apatia, a decepção, a ilusão. Desenvolve competências e aumenta saberes. Faz nascer e morrer amores que mais tarde lembrarão num sorriso.

Os pais repousam no conforto que resta - os filhos estão na escola. Bem entregues, pensarão para que a ansiedade não os corroa. E não há no essencial diferença entre colégios e estabelecimentos públicos. Distinguem-se em pouco. Nas paredes pior ou melhor conservadas, no desconforto suavizado. Nos professores há o mau e o bom. Os colégios são o reduto possível para quem ensina e não possui nota ou vaga para a colocação desejada no ensino oficial. Os melhores leccionam em simultâneo no público e no privado. Asfixiada a consciência dos pais pelo alto custo mensal do colégio, fruem dos «prolongamentos» que podem ir até às sete da noite. A paz possível para quem não tem alternativas. Ou não quer ter.

As crianças crescem com a televisão por companhia. Inventam amigos imaginários na espera de quem os ama e amam. Um beijo e uma carícia à chegada e sobe na lista das prioridades o jantar para fazer, a roupa a ordenar, dois dedos de conversa com o parceiro e a inevitável pergunta "como correu o dia?" cuja resposta se mistura com a tarefa seguinte. Amanhã será outro dia.


Veneno ou Açúcar?



Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005


AÇÚCAR


Zoe Mozert

O correio já não é o que era. E que não me rotulem de nostálgica por esta convicção! É saber da experiência feito. Foi perdida a emoção de abrir a caixa, sorrir ao pegar num envelope ou ficar trémulo antes, desiludido depois, quando a escrita ansiada estava ausente. Entrar no elevador com o envelope aberto, devorando avidamente as palavras.

Desde que o carteiro se padronizou, as coisas mudaram. Há correio azul, teoricamente rápido e de facto caro, maioritariamente ao serviço das más notícias. Há correio registado bem pago pelas administrações dos condomínios, pela Justiça ou Finanças. Sempre olhado de soslaio e aberto com o mesmo entusiasmo de quem arranca um dente. O correio dito normal não tem muita surpresa: débitos e facturas e mais facturas. Tão previsíveis como as cíclicas greves da Carris - quando não existem, estranhamos.

A comunicação que vale mesmo a pena, é agora instantânea, feita de viva voz, por mensagem (abençoados telemóveis!), ou mail. Tudo muito rápido e eficaz. Sem a intervenção adorável do carteiro que nos conhecia pelo rosto e nome. Sem a previsibilidade da hora que só uma gripe ou o excesso do Natal faziam perigar. Sensatamente parco e económico nas facturas.


Veneno ou Açúcar?



Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005


VENENO


Autor que não foi possível identificar

Aos poucos, devagar, muito devagarinho, alguns dos dignatários da Igreja Católica vão deixando cair sinais que desmentem o discurso oficial do Vaticano na área da sexualidade, da reprodução e da prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis (excepto a vida, se dermos voz aos cínicos que dizem ser a única, das transmitidas desse modo, a garantir 100% de mortalidade).

O rebanho apascentado pela Cúria Romana exibe mutações profundas e alguns dos seus pastores acompanham-nas. As mudanças sentem-se nas reflexão feitas sobre o sacerdócio no feminino, o uso do preservativo, dúvidas sobre preceitos antigos. É possível condenar - esta tem sido a atitude oficial - impossível ignorar.

A vida de Cristo e os episódios bíblicos originam investigações e abordagens novas. Umas romanceadas, outras rigorosas, credíveis e fidedignas. Evidenciando o que o pó dos séculos e a fantasia tentaram esconder. O volume de vendas destas obras é elucidativo; o espírito crítico aumentou e muitos membros do rebanho exigem um discurso novo e rejeitam o papel acrítico de guardiões dos dogmas. Até quando este silêncio a custo rompido e a cada dia mais ensurdecedor?

TELEGRAMA I


Autor que não foi possível identificar

À fruta importada, caro JMT, contraponho a nacional, ainda que de nome estrangeirado - pêra francesa. Abunda em qualquer palmo de terra que se preze. O sabor e textura? Incomparáveis. Convém consumir no ponto de excelência. Olhar e toque chegam para o detectar.

TELEGRAMA II

A sugestão musical que aqui vi é pecado de venial distracção perder.

TELEGRAMA III

Este blog só aparentemente anda distraído da realidade nacional e internacional. Se da campanha eleitoral farei o balanço mais tarde, bem como da clausura e morte da Irmã Lúcia, dada a sensibilidade dos temas, já a aprovação da convenção de Kyoto (ainda que parcial) merece aplauso fácil e imediato pelo primeiro passo cumprido.


Veneno ou Açúcar?



Terça-feira, Fevereiro 15, 2005


LOOK


Terry Rodgers

O imprescindível Exacto esmera-se, a par da oportunidade e qualidade dos textos, na publicação de imagens fantásticas de mulheres surrealmente fantásticas. De quando em vez, aplica-se no equivalente masculino, agraciando assim as inúmeras e devotas leitoras. O êxito tem sido modesto, digo eu pensando no "Bahhh!" que espontaneamente me ocorre. E nem se trata de me entrincheirar na desculpa da raposa ao dizer verdes as uvas a que não chega. É genuína a minha decepção.

Então, perante tantos Adónis sorridentes e escorreitos, porque não me babo e dou graças por existirem no planeta tais espécimes? É fácil a explicação. As imagens fotográficas no masculino remetem para visuais de estereotipado charme. O exemplar aqui de cima, porque visto pela alma de quem o «leu», suscita-me uma atracção superior. Não tem pose de sedução e por isso a exponencia. É moreno, dado essencial no que me concerne, tem boca apetecível e cabelo inconformado. Acresce uma pele dourada e o preto que a valoriza. Perfeito!

Mas nem assim me embeveço. Estão omissas as mãos, sempre decisivas, a fala, o humor, o cheiro e a vivacidade do espírito. Fácil é inferir que sedução só mesmo ao vivo. E a cores. O que não muge nem tuge está arredado. Se a isto somar que a perfeição é tediosa, concluo que o defeito de tão modelados seres é não terem no aspecto defeito. Vá lá alguém tentar entender uma mulher!...


Veneno ou Açúcar?



Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005


IN & OUT


Anthony Guerra

O amor é uma questão de geografia. A universitária namora com o colega de faculdade, o feirante descobre na feira a mulher da sua vida, o escriturário vê na secretária da administração o alvo dos seus afectos, e muitas vezes vê mal porque ela também o é do Administrador. O rapaz casa com a rapariga da freguesia vizinha que também dança no rancho e diz: - "Nasci aqui, mas estou casado em Cinfães porque ela é de lá."

Nós, que mergulhámos na urbanidade dos serviços, que perdemos horas diárias no transporte, que nunca acabamos de ler o livro começado com afinco, sabemos que o período activo e de vigília é passado com colegas de trabalho. Impensável, por isso, faltarmos à reunião de despedida porque o Norberto se reformou, ao jantar de Natal comemorativo dos duzentos e trinta e nove dias em que aturámos o Gilberto quando o Benfica perdia, a Lúcia e as suas crises de vesícula, o João irritante nas partidas de mau gosto e a menina Silvia, claro!, a menina Sílvia cujas inúmeras faltas se fazem sentir ao perder-se o espectáculo da mini-saia inclinada apanhando do lixo o papelinho que ainda há pouco lá tinha posto... a menina Sílvia.

Da mulher, (ou do marido) de quem nos despedimos com um beijo apressado, temos a vaga ideia de estar algures do outro lado da cidade onde nada acontece como no nosso escritório. Assumimos que no trabalho dela/dele se trabalha mesmo e não há lugar para devaneios. Mentira! Também há uma menina Silvia que difere da nossa porque se chama Alexandra e faz o mesmo à custa do soberbo decote que obrigou o Andrade, encarregado do lay out, a montar um biombo acabando com o tão apreciado open space. Também lá existe um João que, faça frio ou calor, teima nas mangas de camisa fedendo a água de colónia e reclamando por apelido "de Oliveira".

Saímos levando na pele as emoções daquelas pessoas, os corpos, os cheiros com os quais partilhámos algumas das melhores horas do dia. Segue-se o raid do costume para ir buscar o Pedrinho e a Cristina ao Colégio. Das horas que passamos com o cônjuge é ainda a anedota do Fonseca que nos arranca o sorriso, a história do mioma da Adélia que constitui novidade doméstica. Quando a maquilhagem sai e o fato volta para o armário, encontramo-nos frente a frente com o ridículo pijama que nos descompõe. E como o amor é para ser feito na plenitude das capacidades e a noite é para dormir, adiamos (uma vez mais) essa parte gostosa da vida. Tempo ainda para uma última prece, perturbadora, antes do fecho das pálpebras: "Altíssimo: - que eu não dê em corno!"

Texto escrito por JG

Comentário - O que falta mesmo é arrepiar o quotidiano com a subversão possível. Reinventar o amor. Reconhecer que tudo é precário. Nada ter como adquirido. Introduzir a diferença. Metodicamente. Deslizando pelo erotismo, mergulhando na fantasia. Por horas ou minutos. Transfigurarmo-nos. E não, o amor nem sempre obedece à geografia. Digo eu...

Tati


Veneno ou Açúcar?



Domingo, Fevereiro 13, 2005


TELEGRAMAS


Autor que não foi possível identificar

«Os portugueses condenam mais a corrupção individual do que a institucional»

«Existe a convicção de que os modelos legais e morais podem ser contornados sempre que os interesses individuais ou de grupo se mostrem mais importantes»

«A resposta portuguesa à corrupção pública e política tem sido paradigmática: a lei é geralmente entendida como um substituto da ética»

«Enquanto vai dando à opinião pública a impressão de que qualquer coisa mudou ou mudará, a classe política escuda-se na sua acção legislativa, ao mesmo tempo que continua permissiva às estruturas de oportunidade e corrupção»

«O desempenho dos media , por via da denúncia e crítica, está comprometido pela promiscuidade existente entre a classe política e os órgãos de comunicação. Jornais e canais de televisão recrutam figuras polícias para comentar a vida nacional. Por seu turno, jornalistas ocupam a esfera da política como assessores ou chefes de gabinete»

«As leis portuguesas são como leões sem dentes»


Veneno ou Açúcar?



Sábado, Fevereiro 12, 2005


TRETAS ESOTÉRICAS


Bo Bartlet

Pelo início da Idade Média, o Juízo de Deus ou ordálio correspondia a uma forma de justiça humana sob a égide da divindade. Basicamente submetia o indivíduo acusado a provas, normalmente de água ou fogo, também duelos e o que mais ocorresse, como demonstração de culpa ou inocência. Bastava morrer ou permanecer vivo. Sem dúvida ou remissão. O Concílio de Latrão deu por findo o costume.

O ordálio desapareceu como justiça vinda do além e preservou-se o essencial na convicção secreta de que a sorte protege os audazes. A obsessão pela segurança é generalizada sendo suposto garantir até a paz. Para muitos são os filmes de catástrofe e de acção que hoje permitem viver em segunda mão a emoção e o perigo que se evita diariamente.

Alguns há que transformam a vida numa orgia ordálica, rebaptizada como sorte ou azar. Ultrapassar o perigo, caminhar num arame sobre o abismo. Viver a vida no fio da navalha. Abarcando tudo o que é autodestrutivo de forma não consciente. Expondo-se a um destino vago e decisório do rumo a dar às asneiras.

Mais do que as vontades, foi o tempo que mudou. Sorte ou azar?


Veneno ou Açúcar?



Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005


TROCAS E BALDROCAS


Sorayama

Um banho. Um bom banho. Não um daqueles simulacros matinais e fugidios que o corpo ensonado pede para despertar - chuveirada, gel espalhado mecanicamente, outra chuveirada para terminar. O banho a sério, de gabadas virtudes e que raramente o tempo autoriza, é a redenção possível quando o cansaço ou o desânimo julgam ter vindo para ficar.

O regresso antecipado como prémio que me concedi após um dia demoníaco só podia ter um remate: um banho «daqueles!». Muni-me de toda a parafernália - espuma, óleos, velas e sumo de fruta. Montado o cenário, deixei a água correr até o vapor tudo nublar. Casa ao meu dispor, luz ténue, música num sussurro, velas acesas perfumando o ar húmido, copo ao lado, banheira ronronando. E deslizei voluptuosamente imergindo até ao pescoço.

Já a mente iniciara viagem para remotas paragens, quando o telefone tocou. OK, tinha-o esquecido duas divisões atrás. Fingi que não ouvia. Não desistiu. Teimei na surdez. Replicou o fixo. Nada! Nem pestanejei. Regressou o silêncio. Pálpebras descidas, adormeci o espírito e despertei os sentidos registando os aromas e o redemoinho da água em cada milímetro da pele.

Tocou a campainha da porta. Rejeitei o incómodo. Insistiu. Também eu. Num repente, abri os olhos e fez-se luz: o técnico, a duras penas arranjado, tinha ficado de vir por essa hora. Pulei fora, derrubei copo e velas que chamuscaram e pingaram com cera verde a brancura do roupão. Abri a porta. Lá estava ele! Olhos arregalados de surpresa e riso. Ao ajeitar-me, percebi: toda eu estava enfeitada por espuma como chantilly . Espessa e em vias de decomposição. Como o meu humor.


Veneno ou Açúcar?



Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005


TELEGRAMA


Autor que não foi possível identificar

Mundo à nossa medida.
Redondo como os nossos olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora.
............
Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.

Miguel Torga

IN & OUT



Em apenas trinta anos, a «rataria» que graça na nossa democracia ultrapassa o impensável em quantidade e diversidade. De país de brandos costumes, passámos a um nacional "porreirismo" sob o lema: "É agora ou nunca!"

Da ultra-Direita à cripto-Esquerda, das Autarquias às Finanças, do Glorioso ao Casarede de Ansiães Futebol Clube, da Real Academias das Ciências ao sub-sub-subempreiteiro do consórcio de obras públicas, da Bolsa ao anónimo carteirista, o santo «abotoanço» a todos abençoa, canonizando uns, humilhando outros, mas sempre de colarinho branco. Sim, porque o dinheiro em pequenas quantidades suja as mãos e em grandes... lava-as!

O 8º Mandamento cora num país que é católico ao Domingo. Gamar evoluiu para desvio de fundos. Fanar tornou-se buraco orçamental. Roubar deu em derrapagem económica. Agasalhar subiu para peculato. Tirar caiu em apropriação indevida. Extorquir virou abuso de autoridade. Meter ao bolso redundou em ultrapassar competências. O dicionário de eufemismos (via popular /via erudita) não tem fim.

Não tarda, estarei no Fórum com uma candeia acesa ao meio dia imitando Diógenes. Não em busca do Homem, mas na procura do puro, do probo, do inocente. Como um César com alma de Cristo, perguntarei: "Aquele, de entre vós, que nunca «gamou», atire a primeira pedra".

Texto escrito por JG


Veneno ou Açúcar?



Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005


AÇÚCAR


Autor que não foi possível identificar

Nada como um filme romântico para render uma mulher. Adoramos o romance, a idealização dos amores com direito a happy end, os rasgos heróicos por um afecto. A banda sonora é elemento da perfeição encenada. A troca do pedestal de segurança pela fragilidade «forte» que um amor obriga - "será que sou amado?", "irá ligar?", "porque faz silêncio?", "sinto tristeza por não te ter aqui" - comove-nos ao espelhar qualquer amante que amou, ame ou valha a pena amar.

Notting Hill é disso exemplo. Muitos mais há desde o berço do cinema até hoje. Escolho aquele. Os ingredientes certos numa receita eficaz: amor aparentemente improvável e que combate o fatum troçando dele. Humor e intensidade. E já Platão dizia que o amor é génio poderoso ao impor determinações a tantas outras considerações que, por vezes, é uma das maiores experiências do destino à disposição do ser humano.

Quando no filme Hugh Grant caminha nostálgico e só pela ruas do despretencioso bairro londrino, distraído do ciclo das estações na sua progressão inexorável, a música tem aquele poema perfeito do Ronan Keating quase doendo de tão verdadeiro:

It's amazing how you can speak right to my heart
Without saying a word, you can light up the dark
Try as I may, I could never explain
What I hear when you don't say a thing

The smile on your face lets me know that you need me
There's a truth in your eyes saying you'll never leave me
The touch of your hand says you'll catch me if ever I fall
You say it best when you say nothing at all


E porque serão alguns homens tão avessos a este tipo de filmes? Vai-se ver e é generosidade pura ao permitirem dispensá-los e acompanhar-nos alguém que partilhe o nosso gosto. Uns queridos! Nem eles sabem quanto...


Veneno ou Açúcar?



Terça-feira, Fevereiro 08, 2005


POSTAIS


Jim Warren

Carnaval. Há quem o leve a sério pelos dividendos que ser organizador sempre acarreta. Importámos e ajeitámos o Carnaval do Rio, o Valentine's Day, o Halloween e, seguramente, os criativos devem estar a dar voltas à cabeça como é que vão impingir a um país católico o Pilgrims e o "Dia de Acção de Graças", pondo-nos a comer peru recheado fora de tempo e sem percebermos bem porque sim ou porque não.

Consta que numa tribo (crê-se que Africana) vigorava a tradição de por morte do Rei a população se entreter a matar, estropiar, pilhar, enfim, o perfeito caos durante três dias. Reposta a autoridade real ao fim desse curto período, a ordem voltava espontaneamente sobre todo o niilismo. Transportada literalmente para o Brasil pelos esclavagistas, essa tradição estaria nas origens carnavalescas. O maior espectáculo do mundo onde o calor exige caipirinhas, o futebol se mistura com o samba e a ilusão de três dias mascara a miséria extrema dos restantes.

Carnaval - trapalhadas, excessos, simulações e máscaras. Duram o ano todo mas o calendário regista-as como datadas e desculpáveis. Paz às consciências.

Texto escrito por JG


Veneno ou Açúcar?



Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005


VENENO



Nunca fui dada a corsos, mascaradas ou sambas bamboleados por corpos ao léu, brancos como lixívia e arrepiados de frio. Portas adentro, com amigos de anos e dados a desvarios, até improviso uma pantera cor-de-rosa com orelhas, olhar felino, cauda e tudo. O ano que passou foi disso prova. Aliás, que mais poderia fazer uma molhada de adultos no final de um dia carnavalesco numa casa de montanha que a neve cobre? Lareira e brincadeira, claro! E depois, o sótão de uma casa comporta coisas inenarráveis que dão para quase tudo e quase todos. Um bom vinho solta corpos e espíritos e a partir daí a noite que se cuide.

Este ano, talvez por excesso de trapalhadas e assaltos ao bom senso, o Carnaval dura há tantos meses que a data oficial saiu esmorecida. Vai daí, achei ser altura de o festejar a preceito (sempre me deixarem condoída indiferenças mal agradecidas). Pois se a ele devemos um dia de tolerância, mal feito era omitir a saudação!...

Quanto à máscara hesitei entre a de Santanete a rigor ou a de alma penada que do povão têm feito. Como as várias ilustrações bíblicas exibem dos que se danaram olhos esbugalhados e bocas torcidas por esgares de horror, mulher que é mulher não se desfigura assim a troco do calendário. Seja qual for o visual não dispensa um toque sedutor. A de Santanete é mais adequada - nuances louras, óculos de sol espelhados e uma pashmina laranja. Se não esquecer no obrigatório aspecto de «tia» um ar vagamente imbecilizado e histérico fico perfeita!

Porém, dada a americanização do corso que tem sido a campanha, ataques reles com ar clean, decidi-me pela máscara genuína e que é suposto comandar o mundo - stars and stripes de alto ao que está por baixo.


Veneno ou Açúcar?



Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005


ACQUA_R_ELLAS


Autor que não foi possível identificar

Encontraram-se no acaso que faz girar a tômbola da vida. A geografia, a profissão, o círculo social em tudo divergiam. Ambos com vidas preenchidas pelos afectos. Sem espinho cravado no espírito a enquistar dolorosamente. Não reconhecendo na inquietação dos silêncios privações que os dias desmentiam. É fácil aturdir a consciência com minúcias. Fugir aos cumes e aos abismos da emoção. Basta dispersar o ser nas rotinas, no conforto, nos prazeres.

Ela sentia um peso crescente acumulado ao longo de incontáveis anos, das vezes em que o marido fora brusco, absorto nos próprios pensamentos, não por ser menos generoso, apenas por ser incapaz de transpor o abismo de diferença entre os dois. Sentia toda a fome de intimidade do coração aberta e vulnerável dentro dela.

Ele aprendera na crueza da vida a domesticar ideais. Adiava os fogosos, moldava ao real os mais submissos e remetia à impossibilidade os audazes. Agasalhava a consciência com a segurança de quem fica à margem do calor da batalha.

Ambos julgavam que negando as coisas penosas elas desistiam e iam embora. E apenas se escondiam delas...

No momento em que se cruzaram e no que veio a seguir, aperceberam-se da condição de refugiados da vida. De terem sido como essas pessoas de que falam as Escrituras, que têm olhos e não vêem, terem ouvidos e não ouvirem. Como almas desgarradas das demais, ouviam uma música diferente e temiam dançar a esse ritmo.

Sendo incorruptível o elo que no presente os unia, decidiram conservar os patrimónios afectivos individuais até aí constituídos. Porque a dor alheia fragiliza os edifícios que nela assentam. Porque lhes era preciosa a libertação autêntica que juntos sentiam. Porque cada reencontro era um regresso a casa de qualidade intangível como aquela com que os grandes artistas afinam os sentidos. Ao despedirem-se, permaneciam amalgamados. Imperceptíveis como um murmúrio no vigor de uma melodia.


Veneno ou Açúcar?



Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005


PEREGRINANDO


Victor Shvaiko

Quando os dias para uma fuga são os possíveis, sempre inferiores ao desejo, opto por destinos conciliadores de clivagem com o quotidiano e viagem curta. Apesar do desconforto de me sentir sujeita à gravidade e com o solo arredado umas centenas de metros, o avião é cúmplice ideal para pequenas escapadelas.

Piccola Roma, como chamam a Verona pelos muitos vestígios da civilização romana, vive das ruelas estreitas da cidade medieval e do rio Adige que, voluptuosamente, lhe cinge cada uma das curvas doces. Sedutora, oferece-se aos poucos, permitindo a descoberta de um novo recanto à medida que o olhar cheio, rendido, pede mais. E tem segredos. Que indicia e aos poucos desvenda. Com o vagar de quem sabe que uma dádiva requer sabedoria na fruição.

Porque foi trágico o amor que Shkespeare lhe associou, os românticos não dispensam a mística envolvente e visitam a «casa» de Julieta. Eu prefiro atravessar a Ponte di Pietra e subir ao Castelo. Ou deambular pela Piazza Dei Signori e deter-me na Loggia Del Consiglio. Absorver a magia do lugar. Porque Verona é eternamente fiel, honra as juras de amor eterno. Que nunca foram feitas...

E enquanto a cidade anoitece adoçando o respirar, inauguro com o meu o prazer da noite mansa como um suspiro.


Veneno ou Açúcar?



Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005


BON CHIC, BON GENRE


Keith Garv

Andando numa de confissões, não me repugna mais outra: adoro pijamas! Quentinhos ou em cetim, algodão ou tecido leve que me envolva a pele em conforto. Camisas de dormir só mesmo para a caminha. Aí sim!, delas não prescindo.

O meu pijama pode ter o equivalente no fato de treino de muitos, com a vantagem óbvia de em circunstância alguma ser tentada a entrar num centro comercial assim embalada. Aliás, há razão que acresce a impossibilidade - pijama pede pantufas no Inverno, chinelos fofos no tempo quente e para eles reservo em exclusivo a domesticidade. Como convém.

O prazer de um final de dia, se a privacidade está assegurada, enfiada numa coisa a deixar livres os movimentos e a garantir aconchego, é prazer que antecipo num sorriso quando regresso a casa. Depois virá o chá verde fumegante e de sabor acre sem o sacrilégio da adição de açúcar. Como o café. Como tudo o que saboreio e prefiro sem artifícios. Com deleite e vagar. Deixando voar a fantasia e alongando o momento.

O pijama, para lá do conforto, garante um toque possidónio absolutamente irresistível, já que o social pediria um estilo casual-chique portas adentro. Nunca a vulgaridade de um trivial pijama. E como subverter regras e normas sempre apetece, quando inocentes e dispensando maçadas tanto melhor. É o caso.


Veneno ou Açúcar?



Terça-feira, Fevereiro 01, 2005


TELEGRAMA


Autor que não foi possível identificar

Eu pecadora me confesso e peço perdão:

- pelas vezes em que me perdi em compras prazenteiras e supérfulas;
- por todos os maus pensamentos que recheiam a fantasia;
- pelos cozinhados imperfeitos quando na cabeça dança um texto;
- pela água desperdiçada sem preocupação ecológica quando um banho quente e vagaroso me apetece até que a neblina densa inebrie os sentidos;
- por cada vez que tive de ser bem comportada quando o apetecido era a transgressão;
- por cada transgressão cometida e saboreada voluptuosamente;
- por cada tarte em que esqueci as natas se a Oprah está numa de conselhos delirantes.
- pelas peúgas rotas que reservei às limpezas, quando o remendo se impunha;
- pelas desculpas pouco criativas que consigo amanhar quando sair é tortura e a casa me apetece.

Perdoada seja e a contrição não ficará aquém do gesto. De joelhos estou... As lágrimas? - Logo se verá.

CORREIO SENTIMENTAL


Autor que não foi possível identificar

«O amor é paciente, o amor é prestável (...) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo perdoa - Coríntios 13:4,7»

O poder está nas sociedades como o branco na pintura. Sem o óleo mágico que reflecte por igual a luz, as obras dos grandes mestres nunca teriam surgido. Todos precisamos do poder, no mínimo o poder pequenino dos pequeninos. Do mesmo modo, sem tinta branca um amador de pintura estarrece e nenhuma forma «sai» da tela subitamente triste e sem vida. Depois, o poder origina o perdão. Esse toque de simulada e inefável grandiosidade.

O "perdão" de hoje é forma de polidez que na bolsa de valores sociais vale tanto como um pedido de desculpa, o "faz favor" ou o "muito obrigado". Usado após uma pisadela, deixar o automóvel quinze minutos a bloquear outro que precisa sair, um gesto brusco ou num atraso. Tudo muito light e inconsequente. O máximo que pode acontecer é o Outro dizer que não desculpa. Vai daí, é tido como rezingão, intolerante, logo com mau feitio. Arranja, em qualquer caso, uma carga de trabalhos ou pela má fama gerada ou porque o caso tem cabimento numa qualquer alínea do código penal e pode preparar-se para um ror de anos em que perderá dinheiro e paciência com a nossa justiça-tartaruga.

Quem se leva muito a sério, gosta de conceder o perdão - adorável figura de estilo! - em cenas de elevado tom dramático. Sem dispensar lágrimas e garantias de arrependimento, gestos magnânimos e/ou rancores e desdém que acentuam a assimetria do poder por parte de «juíz» e «réu». Delirantes mesmo são os jogos de perdão nas relações amorosas. Não sendo suposto serem assimétricas, algumas encaixam este estilo retórico e apaixonado. O desenlace é o costumado quando as lágrimas secam. E há quem nele se vicie. Não eu.


Veneno ou Açúcar?





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