|
Veneno... com Açúcar!
pseminveja@hotmail.com
|
|
Quarta-feira, Março 30, 2005
CORTE E COSTURA
Barn Dog
Violência urbana - Os pais vieram há duas décadas, eles nasceram cá. Vidas frequentemente excluídas do essencial nos padrões de país europeu. A segunda geração de imigrantes testemunhou pais explorados ou a quem o quotidiano desfez reservas de confiança. Deambularam pela escola. Nos intervalos, faltas às aulas, nas tardes paradas, fizeram curriculum. Olham os pais submetidos por ordenados de sobrevivência, Nos subúrbios urbanos, nunca pensados para os integrar, o consumo impõe marcas e hábitos que a família não pode dar. Rejeitam a cópia da vida dos pais; querem acesso a bens e poder. Gangs ou pequenos grupos dão lições de marginalidade à «borla» e prometem dinheiro e vida a contento. Sem o suor e as rugas dos pais de que rejeitam ser cópia.
Globalização - Parecia ser a galinha dos ovos de ouro até o grande tigre asiático abrir um olho, depois outro, acabando por acordar de vez. Na Europa um trabalhador custa 40 euros por hora, 4 euros na Europa de Leste, 40 cêntimos na China. Pela velha Europa e Estados Unidos perpassam arrepios da febre pela produção a baixo custo. Nos USA, é solicitado o trabalho prisional em actividade produtivas, com remuneração simbólica para o detido, a preços asiáticos para o empresário. Mudam de poiso empresas para países em que o custo do trabalho está em saldo permanente. Por cá cresce o desemprego. A recessão parece ácaro doméstico - veio para ficar.
Mães de Bragança, filhas do Brasil - As mães emudeceram, as filhas são agora de todo o lado. Também nisto a Ásia dá cartas. Doçura oblíqua do olhar, corpos perfeitos e obedientes ao prazer que prometem. Preços variáveis segundo a cotação na bolsa de valores sexuais. Imigração tão clandestina como a primeira, prestação de serviço melhor remunerado. Para onde irá, neste ramo, a mão-de-obra nacional?
escrito por Tati 09:40
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Março 29, 2005
IN & OUT
Jenifer Janesko
«Rapidinhas». Quais de nós nunca lhes conheceram as delícias ou as desventuras? Antes que o equívoco se teça, proponho classificação:
Rapidinhas sem sal. Dietéticas. Estafadas. Remedeios de quem não faz sexo quando e como quer, mas como e quando pode. Passada a fase de nos despirmos para o amor, e chegada a do mesmo fazermos para vestir o pijama, são o calorzinho da cama mais o corpo ali ao lado os condimentos frequentes do desejo. E acontece a rapidinha. Verdadeira instituição masculina na conjugalidade. Nós alinhamos do mesmo modo que comemos insípidos gelados de baixas calorias - sabem a pouco, e só apetece ir correndo a uma gelataria a sério, lambuzarmo-nos dos mais calóricos que houver. Sem culpa nem pecado.
Rapidinhas picantes. Apetitosas como chamuça acabada de fazer. Associadas ao frémito do proibido e à transgressão. Impetuosas ao desatinarem emoção e corpo. Aquele olhar, que ele sabe deixar-nos loucas, enquanto fruímos da bebida num final da tarde na esplanada do Albatroz, pede sequência. Não pode passar impune. Tentamos ficar pela brincadeira dos lábios e língua na beira do copo, mas não dá. Por essa altura já os corpos se inclinam, e antes que um dos dois vire a cadeira de pernas ao ar, viramo-nos para outro lugar. O mais à mão, uma vez esfumado o bom senso. Sim, que toda a Marginal até casa é tormento imerecido! Por nós e pela segurança rodoviária. A (des)propósito, o novo Código da Estrada contempla rapidinhas em trânsito?
BON CHIC, BON GENRE
Greg Horn
Pessoas há sem a menor compostura! Ora uma (descom)posição destas merecia alínea no Código da Estrada com direito a multa condigna. Como se o respeito das passadeiras pelos peões e a condução dos automobilistas resumissem os delitos de perigo volante!...
escrito por Tati 09:27
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Março 28, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Leite Creme
Ingredientes:
1 litro de leite gordo, 12 gemas, 12 colheres de açúcar, 2 colheres de farinha maizena.
Sabes uma coisa?, na primeira vez que decidi fazer Leite Creme inaugurei o capítulo "Sobremesas" do livro de culinária. Tinha-me saído das mãos, escrito e encapado amorosamente, nas férias grandes. Da cozinha ignorava tudo, e se reconhecia água fervente ao laboratório devia. Vagamente registara, de modo inconsciente, o que via fazer. Que depois repetia sem lembrar por que me ocorriam os gestos - cominhos na carne de porco, alho e muito limão se assada, não abrir o forno durante a feitura de um bolo, dar as claras por firmes se invertidas não caírem.
Bater as gemas com o açúcar até a mistura embranquecer. Adicionar a farinha, mexendo para desfazer os grânulos. Fluidificar com um pouco de leite não descontado do litro medido.
Vinte anos. Perseguia o ideal de mulher-dona-de-casa-perfeita. As amarguras culinárias silenciava-as, ao lembrar que, dois anos atrás, trocava segredos de cozinha pela pintura ou um livro. Então, dizia - "uma receita não deverá ser mais difícil do que protocolo laboratorial." Mas era. E, briosa, não permitia que um Bacalhau Espiritual me arruinasse a auto-estima.
Juntar a gemada ao leite entretanto amornado. Mexer continuamente até a mistura embranquecer e «pegar» na colher. Sem fervuras que talhem o creme.
Julgava-me apaixonada por ti, quando era pelo amor a paixão que sentia. Tínhamos as vidas misturadas. Admiração e respeito. Harmonia e paz. Porém, a jovem reivindicava crescer. Caminhar sem bengala. Acompanhada mas autónoma. Merecer o estatuto de mulher, quando sabia ser uma menina que vias. E a menina cresceu sob os teus olhos. Arredondou o ventre, foi mãe. E acresceu razões para insistir na perfeição que ambos inventávamos. Sem o ser.
No creme já frio dispor açúcar, depois queimado com pá incandescente.
Queimei etapas da vida. A menina passou a mãe sem viver a fase média. Duas décadas depois, é a mulher que escreve. Feliz. Gozando, por fim e na plenitude, o prazer de o ser.
Da dúzia de claras de sobra fazer Pudim de Praliné.
Nota: Adicionei aos Adoçantes dois sítios cuja visita promete, sem defraudar, momentos prazenteiros. Mesa de Café reúne leveza e o bom trato da palavra - não a usa para espasmos delirantes ou tiradas de ironia fácil. Cure For Pain prodigaliza sugestões nada despiciendas e arruma palavras simples em oportunas reflexões de vida. Com o encanto que a espontaneidade sempre tem.
escrito por Tati 10:21
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Março 25, 2005
PEREGRINANDO
Keith Garv
Chamem-lhe efeito estufa ou aquecimento global. Será tudo o que por bem entenderem. É duplamente secante prever a cada acordar: "a seca continua!" Falta a emoção de espreitar o dia e plagiar a Lise (francesa, pois então!) - "Ooooh, putain de temps, henn!..." A chuva rara é bem salvador e tem dado um arzinho da sua graça. Todavia, sobranceiro, como se avisasse - "ignoro preces, aviões com químicos chuvosos e não adianta andarem de nariz espetado no ar; só caio quando e onde me apetecer."
O chove-não-chove esburacou planos de muitos portugueses. A meteorologia foi perversa: o Algarve, ali em baixo mesmo à mão de semear, a prometer casa cheia, bikinis e protectores solares já nos sacos, dente afiado para iguarias marítimas e faz uma destas! A Páscoa tem sol, brisas florais, cores de Primavera. Cinza húmido só pode ser arreganho da Mãe Natura.
Pois a mim tanto faz. Vou num pé e venho noutro lá de cima, banqueteio-me com um cozido à portuguesa amanhã, no domingo espera-me cabrito no forno e leite creme queimado como só na casa materna é feito, e volto segunda-feira com o papinho cheio de mimos e ternura.
Para sol e mar todo o tempo é tempo. Não sendo desta o regresso bronzeado que nos deixa ainda mais sexy e giríssimas - abençoada presunção que os deuses me conservam! -, fica para a próxima. Que a festa da Páscoa ressuscite a alegria e nos livre da pesada cruz das saudades de quem amamos. Deslizarei, rápida, ao encontro do que também sou.
Nota de rodapé - ao referir «deuses» apenas cuido de não incomodar o Altíssimo com baboseiras tamanhas. A Ele reservo o mais sério. Para o resto serve o Olimpo.
escrito por Tati 09:21
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Março 24, 2005
IN & OUT
Greg Hildebrandt
Lulu é amiga mui querida e responsável pelo parto deste blog (não vale comentar que melhor fora ter-lhe torcido o verbo à nascença!). Congeminava ela um modo de me reencaminhar para a escrita, quando esta solução lhe apareceu sorrateira. Numa tarde de Setembro, entre gargalhadas e «bocas» que recordo sem me atrever a reproduzi-las, entrámos nesta aventura. Nicks pirosos - Lulu e Tati - a condizer com a revista feminina que formataria o modelo. Para encurtar, uma Maria ou uma Cosmopolitan em blog. Tudo muito feminino, frívolo e irónico. Até que conseguimos assim, assim, amiga...
À época, verbalizava - "eles são o mais intrincado dos mistérios". Defendia a Lulu o oposto - "não tão diferentes assim, mas com idiossincrasias insuportáveis." Aconselhou-me a encontrar respostas numa virtualidade que tinha por impagável divertimento - o Mirc. Com o telemóvel por apoio, forneceu-me rudimentos e dispensou prevenções. Mais sabia que se as fizesse, a iniciativa estava fora de cogitação. E entrei num kindergarten para adultos.
Havia uma carreira de nicks inimagináveis. Piscavam, alucinados. Abri «janelas» e pasmei. Entendam porquê:
- oi
- Boa tarde.
- dd tc? (a Lulu era a minha máquina Enigma)
- Lx (esta eu sabia!)
- idade e nome
- ..... (Maria servia perfeitamente)
- que fazes?
- ..... (dizia a verdade, imaginem!)
- como és?
- Psicologicamente?
- n fisica 1º
- Tenho 1,67m, 52kg, olhos e cabelo castanhos.
- liso?
- Sim. ("caracóis se me apetece" dava muito trabalho!)
- só?
- É o essencial.
- nº de soutien
- Como?
- q copa usas
- Desculpa. Ciao!
- como tás vestida
- lingerie?
- fio dental?
- tás sozinha?
- tens tlm?
- ?
- ?
"Retrato à la minuta". Teimei até encontrar alguém que não ameaçasse pedir-me o número do BI ou de Contribuinte. Árdua busca... Vinte para um. Nos 5% residuais encontrei desiludidos, magmas de solidão, (des)encaminhados, voyeurs, divertidos, excelentes conversadores, tédios. Aprendi que «n» = não, pontuar + maiúsculas = novata, «fds» código de fim de semana (à primeira, ocorreu-me o pior dos cenários confesso!). Que se as teclas ouvem o coração, as diferenças entre sexos são poucas. Que todos queremos o mesmo - abafar medos, iluminar a solidão, estabelecer pontes que alimentem sonhos. Haver quem, na quietude da casa ou no emprego estafado, se refugie no «toque» possível do outro. E se vicie na fatia que dele lhe chega. Por ela se ficando. Ou não.
escrito por Tati 09:16
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Março 23, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Boris Vallejo
Laura Schlessinger decidiu, numa assentada, resolver as dificuldades de relação entre homens e mulheres. A benemérita iniciativa veio sob a forma de livro da Amazon - The Proper Care and Feeding of Husbands. Nova Iorque ficou em estado de choque, e chocar nativos da Big Apple não é para qualquer um. "Sexo quando e como ele quiser", "Os homens são amibas que só precisam de comida e luz para viver", são exemplos dos tesouros que a obra guarda.
"Para manter a sua amiba contente não chateie. Nada de calças de fato de treino. Não o incomode com os seus problemas. Deixe-o passar o tempo que lhe aprouver com o Gameboy e os amigos. Trate-o como ao seu animal de estimação. Se ele tiver sexo, exercício físico e comida vai portar-se bem! Se ele não quiser sexo, aceitará uma sanduíche."
A autora do artigo da Elle foi mais longe. Interpelada se não estaria a castrar o marido, tentou que a respectiva amiba florescesse durante uma semana. Silenciou razões, não fosse desvirtuar a pesquisa. Marinou costeletas de borrego, aprendeu a arte do Arroz Doce (ele optou pela sobra de fatia de Vianetta da véspera), eliminou pêlos até aí normais, aumentou os níveis de sedução, pediu-lhe para a ajudar a levantar a tampa do contentor (eles devem sentir-se importantes), reservou-lhe tempo (convidou-o para um piquenique que ele rejeitou), fez-lhe elogios (ao terceiro ele achou que ela estava exausta ou doente). Nada! Resultados visíveis só a omissão de certos pêlos e o cinto-de-ligas trouxeram (o equivalente masculino ao apelo do acasalamento dos animais).
Nem oito, nem oitenta. Se entende por jantar qualquer coisa no micro-ondas, se massacrá-lo quando ele vê futebol na televisão faz parte dos seus hábitos, se não desiste de se depilar ou fazer chi-chi na frente dele, passarinhar pela casa aos fins de semana com máscaras faciais cor de pistácio, teimar nas cuecas-da-avó ou no soutien velho sem a menor graça, cuide-se! Está na hora do Arroz Doce e do cinto-de-ligas.
escrito por Tati 09:01
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Março 22, 2005
CORREIO SENTIMENTAL
Jim Warren
«A fobia ao inexorável envelhecimento. Como se passada a idade dos «porquês», que hoje se espreguiça até aos trinta e tal anos, e do fresco e apetitoso, situados até um pouco menos, não houvesse mais a esperar.»
É penoso não fruir do correr do tempo e renegar rugas - preciosos troféus de guerra. Cada uma tem história cuja soma é a vida. Mulheres entornam rios de dinheiro em luta, sempre perdida, contra a idade. Homens rejeitam o estatuto, mais que sedutor, de pessoa madura. Pessoas declinam a aceitação do presente e refugiam-se em idos que pintam com irrealidades de beleza e pujança. Insistem em dourar o passado do seu corpo e esquecem a riqueza do presente. Talvez porque o espírito definhou, é a deprimida alma que remanesce.
Sinto piedade - arrogância de que me envergonho - ao observar mulheres a que os anos deveriam ter acrescido encanto, embonecarem-se como teenagers decrépitas. Em busca de um tempo finado que, frequentemente, nem foi grande coisa. "Tinham tudo no sítio e sentiam-se mais desejadas", dirão elas. Falácia pueril. Pode ser atracção acrescida a sabedoria, o refinamento, a feminilidade apurada com os anos.
Quando o corpo se alimenta de um espírito atento e optimista, ele permanece liso e esticado. Nada cai porque a mente não caiu. E se há genes generosos, é desejo vibrante na persistência do olhar de quem com elas se cruza a dizer - "Não me interessa a tua idade. A mulher que és agrada-me!" Mais importante ainda - essa mulher agrada a si própria.
O avanço do tempo tem consequências comezinhas, mas saborosas. Se apetece a aventura de uma viagem de «metro» à hora de ponta, as vítimas apetecidas dos olhares mais velhos que cobiçam lugar sentado são outras. Os tais deliciosos iogurtes acabados de comprar. E convém consumi-los sem delongas porque a validade é curta. Ao rejeitarmos a condição de bem de consumo perecível, fazendo da idade apuro evolutivo, constaremos que ninguém resiste a um vintage de eleição. Eu não resisto.
escrito por Tati 09:04
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Março 21, 2005
TELEGRAMA
Autor que não foi possível identificar
Porque hoje o Dia é, no mundo, da Poesia.
No meu poema ficaste
de pernas para o ar
(mas também eu já
estive tantas vezes)
Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)
Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto;
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso
Ana Luísa Amaral
ACQUA_R_ELLAS
Autor que não foi possível identificar
O Alfa pendulava na leveza do alumínio e velocidade. 016/006 - o lugar, sempre o mesmo, junto à janela, da ida e volta semanal. O quieto horário que cumpro desde há meses. Viagens sem surpresas. Ronrona o comboio, dormita quem pode. Uns colam música ao ouvido, a outros entretém-nos o portátil. Jornais, livros, revistas, tudo serve para consumir tempo.
Quando o comboio silvou no Oriente, não tinha companhia. Invadi o assento livre com a pasta. No tampo que baixei, dispus a inseparável garrafa de água e o livro. Escolha antiga, traduzida na compra da véspera. Banalizei-a ao acrescer, na loja seguinte, uma camisa florida da Sacoor. Linda a capa do livro: uma espécie de jarro encarnado jazendo, discreto, na base da cartolina branca. Ao florir as duas compras, antecipei o equinócio da Primavera.
Chegou pouco depois. Muito jovem, muito alto. O sorriso foi genuíno, os olhos castanhos coruscavam. Gel espicaçando o cabelo. T-shirt de manga curta por cima de outra de manga comprida. Reservei à pasta o lugar devido e sentou-se. Tirou o livro da Susana Tamaro, mas era música que ouvia. Eu lia. Não é fácil ignorar quem se move ao nosso lado. Vi-o enrolar um cigarro com minúcia e precisão. Pediu licença para usar o meu isqueiro, não hesitando no olhar franco ao reacender o sorriso.
Esquecera a última vez que, em viagem, me envolvera num diálogo longo, espontâneo e encantador. O curso, a difícil relação paterna, a opção política, a solidão inicial da vida em Lisboa, as expectativas, os amigos - "Três Mosqueteiros+1". Adorável a pronúncia do Norte. O projecto de partir à aventura numa viagem por Marrocos. Pela América Latina um dia, quem sabe?, os olhos faiscando desejo. A rejeição ao álcool, o abandono progressivo do tabaco, o veemente não às drogas e a fidelidade à "minha Mari Juana".
Falou, falámos, ouvimos. Aprendi. Saboreámos com vagar o fluir das palavras. Prazer mútuo que enfatizou. E ele tão jovem... Vinte e um anos. Chamava-se Santiago.
escrito por Tati 08:16
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Março 20, 2005
CORTE E COSTURA
Autor que não foi possível identificar
Aspirinas. A venda livre encrespou lobbies invejosos e «Velhos do Restelo». Ameaçaram com embalagens violadas, pílulas pelo chão misturadas com feijões e grãos de arroz. Omitindo a possibilidade de zonas específicas para venda de medicamentos e assistidas por técnicos. Temem que nos «enfrasquemos» em aspirinas se uma área comercial decidir fazer promoção. Que substituamos a sobremesa por uma pratada de creme gordo Barral. Passam-nos atestado de mentecaptos e o pessoal fica-se. Perverso, é ficarem fora da discussão os chorudos lucros dos laboratórios farmacêuticos que por esta via mais engordarão. De que já nem cuido. Assim haja acesso ao necessário em horários mais alargados, fora da tirania - bem paga! - das farmácias de serviço.
Código da Estrada. O novo. Foi adiada a entrada em vigor. Os dois governos, durante o último ano, esqueceram a clarificação de procedimentos, impressão e distribuição de novas guias, os meios necessários às forças policiais para o aplicarem. Cala-se o povo e calam-se os fazedores de opinião. A reacção «portuga» é bem diferente quando a substância de uma medida se traduz em disciplinar as gentes e punir prevaricadores. «Moita carrasco». Ninguém abre a boca, não vá o diabo «tecê-las».
Seca. À conta da seca há rezas, procissões, preces, velas acesas em igrejas, aviões no ar lançando químicos para que uns pingos se entornem do céu. Pingos escassos incapazes de mitigar a sede da terra. As danças rituais virão a seguir. Enquanto isso, atentamos na espessura e abundância das nuvens. Minguadas, incapazes de aglomerar partículas de vapor de água. Os enlutados verdes que sobraram do último ciclo da terra, testemunham o desespero dos solos definhados pela sede. E secam fontanários, nascentes, barragens. Secam os casulos das folhas e flores por nascer. Aborta a germinação nos solos. Morrem ou amedrontam-se os vivos.
escrito por Tati 09:04
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Março 19, 2005
TELEGRAMA
Autor que não foi possível identificar
Hoje dar-te-ei a mão, aconchegarei o meu rosto junto ao teu, permutaremos felicidade por ser próximo o nosso respirar. Mais valioso porque raro.
Lembro-te e lembro todos os pais. Aos que a vida fez pertencerem ao redutor 4/26, subtraindo-lhes condições para uma paternidade de maior presença.
A lei poeirenta e cega impede-os. Uma separação não pode equivaler a injusta distribuição do poder paternal. Dar à mãe vinte e seis dias do mês na companhia dos filhos e ao pai apenas quatro. Que venha a mudança!
TRETAS QUASE ESOTÉRICAS
Autor que não foi possível identificar
Conversa de mecânico de automóveis e respectiva tradução:
A culaça (cabeça) deve ser rectificada, para que a taxa de compressão (relação volumétrica) seja maior; assim, a árvore de cames (veio de excêntricos) roda certinha e os pistons (êmbolos) não gastam tanto os segmentos (feixe elástico). A biela (haste do êmbolo) ao fazer rodar a cambota (veio de manivelas) tem que estar síncrona com os impulsores (tacos de impulso) para abrir e fechar as válvulas nos tempos certos. Tem de se desentupir o gigler (agulha) para dar uma prise (super directa) mais veloz. O bujão (parafuso) do cárter (base de assentamento) tem que levar uma anilha (junta) de cobre para vedar o óleo. Depois disto, o escape (evacuação) não faz vibrações na panela (silenciador). Os cardans (união elástica) da direcção têm de ser substituídos para o guiador (volante) ficar mais leve.
Texto escrito por JG
Numa acepção romântica:
Quando arredamos a culaça num afecto, a taxa de compressão das volatilidades amorosas pode descompensar. Se a árvore de cames que possuímos for exacerbada, os pistons emotivos ameaçam os segmentos que unem os seres. Na sincronia entre bielas que suportam sentimentos e a cambota dos gestos, está o segredo da oportunidade dos impulsores. Que nos surpreendem e desejamos. Ao deixar o coração isento de giglers, é a felicidade que dá uma prise direitinha ao paraíso. Os bujões que tudo ligam e que no cárter precisam da anilha que associe sonho e realidade, não limitam escapes individuais e as vibrações da panela silenciam fantasmas, medos ou solidões. E que nunca faltem cardans a orientar a leveza do guiador.
O português escorreito dá muito arranjo; de mecânico... nunca!
escrito por Tati 08:45
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Março 18, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Anthony Guerra
Alguma dos nossos políticos parecem ter regredido ao jardim de infância. Na ausência de canto de areia em que se rebolem e façam mil e umas piruetas ou desacatos inocentes, vão-se entretendo em picardias infantis. Por não usarem bibes, não podem puxar pela bainha até ela pender esfiapada, tão pouco desfazer os laçarotes da cabeça das meninas ou dar um sopapo às escondidas da professora. Em vez disso, são birrentos, mandam retratos emoldurados à sede uns dos outros, fazem caixinha se retomam ou não o lugar da Câmara que tiveram e onde ninguém, nem o partido os quer.
Não sei qual teria sido a previsão astral dessa figura única e dom-quixotesca, passeando na vida em luta contra moinhos de vento - sempre com uma ou mais Dulcineias à perna -, chamada Santana Lopes. Boa não foi certamente, e se má saiu pior que a encomenda. Definitivamente, o homem anda azarado. Melhor fora ficar sossegado no cantinho na OCDE que o Sócrates lhe propôs, do que fazer pender decisões do valor da pensão de reforma que podia desde já receber - sim, porque isto de cargo público triplica o tempo de contagem para a reforma. Ou seja, os políticos trabalham que se fartam e o vulgo é, além de madraço, muito mal-agradecido, por não notar produção que legitime tanta benesse.
Para tornar tudo ainda mais rocambolesco, circulam capas de revista em que a remoçada Cinha afirma, tim-tim-por-tim, ter sido a mulher da vida dele. Os astros, pelas bandas da Praça do Município, andam loucos!...
escrito por Tati 11:46
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Março 17, 2005
AÇÚCAR
Autor que não foi possível identificar
Portugal é denunciado como um dos países mais xenófobos da União Europeia. Constatação que não surpreende se encaminharmos o raciocínio para a deterioração social: desemprego, criminalidade e insegurança ascendentes. Solo propício à germinação de ervas daninhas radicais e conservadoras. Fora o passado histórico a orientar-nos, e sobrariam razões para manter viva a pluralidade de séculos de andarilhos navegantes.
Contraria a xenofobia a solidariedade nunca negada nas pequenas comunidades do interior. O imigrante pode ser olhado com prudência ao chegar, mas, reconhecido o empenho num trabalho honesto, é integrado sem reservas. Brasileiras à parte! Nas grandes cidades o anonimato equivale à indiferença ou desconfiança subjacente a qualquer interacção. Predominam máfias manipuladoras e organizadas. Quem prendem nas garras, raramente é solto.
Para garantir apoios e inserção no mundo do trabalho, proliferam organismos estatais e particulares. Vivem da dedicação dos que ali trabalham e esquecem horas de saída. Trocam remunerações chorudas pela dádiva que de si fazem em cada dia. Testemunham o sofrimento dos imigrantes, aliviam medos, informam direitos, encaminham a incerteza em que para eles se transformou a vida. Assim fez uma talentosa jovem, licenciada em direito. Iniciara promissora carreira num reputado escritório de advogados. Concluiu não ser para ela a competição, o lucro e o carreirismo; ficava omisso o espírito de serviço que a motivava. Optou pelo apoio a imigrantes. Os olhos brilham ao descrever o que faz. Revia-a durante o café matinal de sexta-feira, onze de Março. Fazia anos. Mimei-a com amizade. Despedimo-nos entre risos na paragem do autocarro que a leva ao trabalho. Chama-se Vera Sampaio.
escrito por Tati 08:03
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Março 16, 2005
PEREGRINANDO
Greg Horn
Tenho uma fisiologia estranha. Três vezes por semana, lido com dezasseis séries de outros tantos abdominais, subo e desço do step, estoicamente, ao ritmo de inquisidor encartado de quem me treina. Não retenho destas doses mais do que a agradável sensação de músculos trabalhados e mente descontraída. A parte ruim é não acrescer um grama ao recorde pessoal dos 52 kg. Porém, a roupa invernosa dos últimos meses pesa-me para lá do suportável. Tentei alijar parte da carga diária e dei-me mal - nariz de palhaço pingão, garganta zangada e cabeça de chumbo.
Em vez de aproveitar a minha constipação anual - não sou «piquena» para abusos, uma chega! - reclamando paparicos e deleitando-me, dei por mim dominada por um imperioso desejo: fuga imediata e solitária. Sem combinações ou cedências. Silêncio à la carte. Destino quente a pedir trapos mínimos para cobrir as partes pudendas, mochila com o básico, o resto a comprar no destino.
O cenário não prima pela originalidade. Fico-me por um resort paradisíaco que traga em bandeja o menu completo - panóplia de sumos de fruta exótica, desportos radicais ou nem por isso, areias brancas, palmeirais imensos a lamber ondas tímidas. Como modéstia no pedir, quando de fugas se trata, não me faz o género, acrescento poentes serenos, noites compatíveis com pele dourada, vestidos brancos presos por alças escorregadias. Ah!, sem esquecer aqueles seres prestáveis, dispostos a estimular iniciativas que gratifiquem os hóspedes. Mesmo uma demorada e misteriosa caça ao tesouro.
escrito por Tati 08:29
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Março 15, 2005
IN & OUT
Greg Horn
Um começo provocatório a lembrar literatura de cordel - "Hoje, vi papoilas vibrando de cor na terra que arfava de secura. Quando uma pequena fuga à rota de regresso me apetece, cedo. Ouço o apelo que sopra ao ouvido e fujo para o mar, para o nada, para o campo sempre tão perto desta Lisboa. Foi quando as vi. Na verdade, elas fizeram que as visse, o que não é bem a mesma coisa."
Uma constatação como esta, vinda de uma mulher, basta para acrescer razão aos que defendem - e não carece de discussão - terem os cérebros femininos e masculinos percepções do real, capacidades cognitivas e emocionais distintas. Depois, vêm os estudos suportados em pesquisas e análises e trabalhos a provarem por «a+b» que a matemática é coisa deles, não nossa.
Mulheres houve que, à conta dos números, deram xeque-mate aos pares. Poucas. O finca-pé de séculos na tradição das «prendas» femininas, sem contemplações para extravagâncias matemáticas, teve parte da culpa. E hoje? A fábrica das mulheres «prendadas» fechou as portas e destruiu os moldes em armazém. Ainda por aí circulam exemplares, porém em fase de declínio e extinção.
Quem transmite a paixão dos números, tem visão diferente. Pelos onze anos, e devido ao avanço de maturação relativamente aos rapazes, as meninas estão mais disponíveis para conhecimentos que satisfaçam inquietações sobre o mundo e a vida. Para eles o jogo matemático é mais um a preencher ócios. Daí por dois/três anos, acontecerá o inverso - elas terão acumulado capacidades para o trabalhoso empenho no cálculo e eles para informações dispersas menos esforçadas. O futuro que eles antevêem não vai muito além do final da tarde; elas serão mais determinadas e aptas para investimentos intelectuais.
Para resumir, a questão é simples - ensinamos mal por não atendermos às necessidades em idade e género. As turmas mistas em idades precoces são um erro. E ninguém gosta do ensinado que não responda a interesses e/ou capacidades. Conciliem estratégias pedagógicas e sexos, e a opinião do senhor Larry Summers, daqui a uns anos, terá virado jurássica.
escrito por Tati 08:25
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Março 14, 2005
TRETAS ESOTÉRICAS
Greg Horn
Duas mulheres. Uma relação afável a prometer amizade. Por serem raros os momentos de disponibilidade comum, uniu-as a vontade, a brisa de um café e a empatia sentida. A fala entre ambas sempre omitira circunstância. Antes infinita procura de respostas.
Formação académica divergente - Filosofia e Ciência. Mariana e Teresa. Quase pedindo desculpa, Mariana resolve soltar a pergunta há muito adiada: "Sei que és crente e católica. Que a investigação e a especulação sustentada da Natureza te atrai. Como concilias o que tenho como oposto? Como permites que o divino fure o pragmatismo do teu raciocínio?"
Olhando-a, porém recolhida, Teresa verbalizou o que no silêncio do laboratório a interrompia e fazia deter num voo de pássaro ou na pincelada das nuvens sobre a tela azul-celeste. "Quando esmiuço átomos, observo sinais de raios cósmicos, atento na organização perfeita da matéria, especulo sobre antimatéria e dela faço simetria do real que conheço, mais me convenço de tudo se entretecer. Seria ofensivo, até ao entendimento médio, resumir como aleatório o jogo das partículas. Como na roleta de um casino, o croupier anuncia, faites vos jeux! e alguém varre para si as fichas da mesa. O «pleno» à escala universal. Não!, não são quarks e positrões que me inspiram. Que me satisfazem a fome de explicação. E seja Deus, Alá, súmula de energia ou Buda, não importa. Todos procuramos a unicidade. O que nos ultrapassa. Maior que nós."
"E os milagres, a infalibilidade papal, os santos, a ostentação do Vaticano, a guerra, o terrorismo?" - "Não me apego a crenças ou erros que a tradição e poeira dos tempos acumularam. E quando improviso uma prece que murmuro ao entrar numa igreja mergulhada em penumbra, agradeço a maravilha da fé que me acompanha e dá sentido. Não espero protecção adicional aos atropelos da vida. Mas conforta-me não me sentir só."
TELEGRAMA
Stephen Youll
O meu gosto na selecção do tido por apetecível no masculino suscitou vastas reservas. Dos homens, está visto! Sendo que algumas delas vieram de um caríssimo comentador regular que desde sempre optou pelo mail, achei merecida nova tentativa. Se o de lá de baixo, segundo opinado, parecia ter a palavra gay escrita no balão a voar-lhe do íntimo, será que este é mais conforme à virilidade pujante?
escrito por Tati 08:40
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Março 13, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Ashley
À mulher sempre esteve associada uma luxúria insaciável. Na falta de marido que a governasse, era suposto precisar de uma parede, muros que a contivessem. Os conventos funcionaram, durante séculos, como armazéns para mulheres da nobreza que só tinham dois futuros possíveis: maritar ò monacar . Contudo, nem todos as barreiras interpostas impediram que algumas freiras ultrapassassem o desgosto e as proibições, ao cativarem amizades e uma ou outra paixão.
Destinadas à clausura, acautelava-se que fossem mínimos os contactos com o mundo exterior. Pela visita da família e, particularmente, através das empregadas dos conventos não sujeitas à vida conventual, iam sabendo do que era acontecido. E a tão desvalidas mulheres cuidavam que do exterior nada lhes ameaçasse a pureza e a inocência.
A amizade mais transgressora existia entre freiras e cortesãs; para estas, ao caírem em desgraça, professar era a saída. De algum modo, umas eram das outras a imagem reflexa. E se às freiras relutantes era imposto que sepultassem os desejos entre altas paredes de pedra, nem por isso foi cumprido o objectivo de as reduzir à castidade. De onde infiro não haver muros altos ou limitações bastantes para anular o desejo. Ou impor castidade. Sempre escolha, nunca fardo amargo na existência.
Tempos redutores para as opções de uma mulher. Ai daquelas que não se incluíssem num dos três destinos costumados: freira, esposa ou prostituta. No respeito pelo então inerente à condição feminina - castidade, obediência e fonte de prazer. Que o tempo se encarregou de carcomir.
escrito por Tati 09:06
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Março 12, 2005
AÇÚCAR
Terry Rodgers
Dado a manifesta superioridade numérica de imagens femininas na pintura que vou publicando, há muito o masculino me deveria ter merecido busca mais eficaz. Digamos que, por aqui, se «cotas» é necessário estabelecer só a favor dos homens.
Ao deambular virtualmente pelas galerias de arte do mundo inteiro, a oferta é de dez corpos de mulher para um masculino. Os raros espécimes estão, na maioria, associadas a galerias em que o espírito gay domina. Traduzindo: as poses são másculas e importadas da penitente e teimosa musculação, os genitais surpreendemente generosos seja na versão erecta, pendente, adormecida ou displicente. Se ao tratar as imagens cortar os imponentes apêndices, pouco mais sobra que rosto a lembrar «segurança» machão da noite lisboeta e peitorais a fazer corar de inveja qualquer «trinta e seis/copa C» do equivalente feminino.
Não me tendo na conta de distraída da beleza que o homem pode ostentar, e sendo que atentos como eu muitos pintores(as) há, deduzo que a oferta desigual se deve ao "vendável", a obediência às normas do consumo. Logo, o corpo feminino vende mais. Curioso, quando o apetite consumista está maioritariamente nas nossas mãos. Mas convenhamos: em presença do ser acima exposto quantos de nós ficam indiferentes ao sábio equilíbrio de linhas, desenho muscular, à tez morena e aos lábios voluptuosos? E ao cabelo, à displicência da pose, aos jeans caídos?
Caro Engenheiro José Sócrates: para quando um retrato seu, bem «desmarcado» do politicamente correcto, a embalagem reduzida ao essencial e esquecendo a excelência do seu gosto de militante Armani?
P.S. Nem emendo! Acho o meu «cotas» de hoje um must. Este não é um bom pano, mas é voz do povo que no melhor cai a nódoa.
escrito por Tati 08:31
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Março 11, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Bryan Larsen
Dos fins de semana, a noite de encanto crescido é a de sexta. Após o regresso estafado, apetece o casulo do espaço doméstico. Apetece largar os saltos, despojar o visual minucioso e dar lugar ao abandono numa embalagem simples e protectora. A saída para eventos, jantares ou outras obrigações sociais nem merece ponderação. Nunca, jamais, em caso algum!
Quando o Inverno deveria estar a fazer malas, porque preparado para rumos noutras latitudes, parece apostar em manter-se refastelado na geografia que ocupo. Rendo-me sem rebeldia ou lamúrias. Garante-me a fruição da lareira, da neblina parda a diluir contornos exteriores e que acresce o prazer da intimidade. Da leitura e da música que acompanho roendo uma maçã, enquanto a suavidade do momento me pacifica.
O Pacheco Pereira tem vindo a lembrar as bibliotecas, sem omitir as itinerantes da Gulbenkian. E lembro as tardes de verão em que a miúda que eu era há muito havia esgotado o «fornecimento» de leitura previsto para as férias na casa de Verão. Saltitava num e noutro pé ao aguardar em ansiedade crescente a chegada da carrinha e o Sr. Mateus. Entre um afago na cabeça e a sagrada pergunta "os paizinhos, avós e tias como estão?", já eu me escapulia em voo picado para os títulos que tinham ficado debaixo de olho na semana anterior. Empilhava as escolhas com infinito cuidado e esperava o piscar de olho cúmplice que semanalmente simulava distracção e legitimava os excessos em número e conteúdo da minha selecção.
O prazer de ocupar tempo sem tempo numa livraria não é comparável ao gozo e à adrenalina da competição pela obra-objecto-de-desejo. Foram-se as itinerâncias livreiras, foi-se a «ratice» da escolha, despedir-se-á o Inverno. E no que tudo substitui vou alimentando a espera pelo novo e de sempre.
escrito por Tati 08:07
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Março 10, 2005
BON CHIC, BON GENRE
Will Kramer
Que "a vida é composta de mudança" todos sabemos e dela o poeta fez obra. Vem isto ao caso dos mui estimados Troblogdita e JMT terem enriquecido, por via de reflexões distintas, o artigo aqui publicado na passada segunda-feira - breve comentário à evolução ideológica/partidária de alguns políticos, de resto comum a muitos outros cidadãos.
O Troblogdita fundamentava o progressivo distanciamento de facções políticas antes perfilhadas. Afirmava o JMT desconfiar de mudanças ideológicas após os trinta anos, fazendo distinção entre "ajustes" (que presumi aceitáveis) e "derrapagens" (traduzi por alterações substanciais do fio condutor). Aqui constato clivagem no nosso pensamento. Defendo ser expectável que a existência obrigue a interpelações devidas a relevantes mudanças sociais. Entendê-las e, posteriormente, integrar pela anuência ou como simples facto, quiçá divergente do que o próprio defende. Não me parece que «neste particular» a abertura do ângulo envolvido entre o passado e o presente tenha limite padronizado. O circular movimento do ponteiro das horas é de tal modo vertiginoso que torna imperioso analisar as mudanças para que a confusão não vitime o ajuste social. Como alguns idosos que afagam o passado pintado como arco-íris, enquanto rejeitam e baralham o presente.
Proponho um «suponhamos»: alguém que na juventude e início da vida adulta se consome no ter-e-haver feito mandamento do sucesso que a sociedade consagra. Imaginemos um workaholic entusiasta e cego a outros bens essenciais - afectos, arte, meditação e prazeres alheios à carreira. Se chegada a sabedoria, reconhecer ter ficado à margem do muito que soma a vida, será inaceitável, logo de mau-tom (adorei o comentário do inefável Nuno da Câmara Pereira ao dizer que, enquanto parlamentar, domaria a sua natural emotividade pelo tido como bom-tom!), optar por um quotidiano despojado, ecologista e/ou defensor empenhado das minorias étnicas? É que nestas coisas do pensamento e liberdade o bom chic, bon genre tem limites.
escrito por Tati 08:24
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Março 09, 2005
LOOK

Um olhar inaugura a atracção. Súbita, irresistível, avassaladora. Confirmada ou não pelo advir. Do momento em que alguém nos arrebatou o desejo de forma vívida, guardaremos registo. Até que outro alguém nos perturbe intensamente.
A forma de ampulheta do corpo de uma mulher padronizou, desde há muito, atracções. Seios fartos, linhas voluptuosas e marcadas ontem, menos opulentas no presente. Os seios retomaram relevância como dizem ser apanágio das épocas em que as preocupações estão centradas na imagem e menos nos ideais. A anca farta quer-se agora mais insinuada que ostensiva, a altura requerida aumentou centímetros e arrasou o tempo da «pequenina como a sardinha». Os ombros descaídos de há vinte anos, foram trocados por costas de ombros direitos e impressivos a sugerirem auto-confiança.
Gosto do corpo humano. Pode ser obra de engenho e arte perturbador. Porque belo ou estranho. Como a arte. O corpo de uma mulher fascina-me, ao arrepio da marcada tendência heterossexual - a única que em mim conheço. Do meu apreço pelo corpo humano é feita prova nas imagens que este blog vai seleccionando. Sem ninfomanias por aqui já acusadas. Sem narcisismos exacerbados e de que me dê conta.
Lábios e pernas. A par da altura e silhueta esguia são factores apelativos numa mulher. Lábios cheios e pernas como que esculpidas à mão. Sempre longas. Suportadas por pés cuidados e bonitos que umas sandálias leves se encarregam de sublinhar.
Dou de barato a ociosidade desta reflexão. Mas quando o belo mexe e respira é dom da vida que glorifico. Como legado do Grande Mestre. Como obra-prima ambulante. Como princípio de nada ou, talvez, de tudo.
escrito por Tati 08:35
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Março 08, 2005
TROCAS E BALDROCAS
Vivid
Eu, pecadora me confesso. Empolga-me o prazer - o lícito (nele incluo o trabalho) e o privado que seres graníticos tomariam como ilícito. A obrigação enfastia-me. Ao primeiro entrego-me, à segunda cumpro-a. Dos prazeres tenho rol maior que o de lavadeira de família numerosa e abastada. Nas obrigações opto por uma de duas - ou lhes dou a volta e as transformo em prazer, ou lhes satisfaço as exigências com sovinice no dispêndio de energia e psiquismo. Não autorizo que se instalem no tempo e me amarrem como correntes de cujo cadeado perdi a chave.
Ao afirmar-me pecadora, rendo-me aos ensinamentos da longínqua catequese. Espremido o essencial, dele restava que o saboroso era pecado. E vinham os actos de contrição, as confissões, a culpabilização no antes e durante confessionário, a penitência cumprida com as mãos postas e de joelhos. Na Quaresma que por ora vivemos, mais havia que ser sisudo, fazer jejum e orar, orar, orar. Até chegar a festa e sol da Páscoa, com as amêndoas e a doçaria, muito era suposto penar.
Do "sabe bem, é pecado" de antanho, passámos ao "sabe bem, faz mal" do presente. Se o fogo do Inferno não entretém pesadelos, é o temor da doença e degradação do corpo a martirizar os vivos. Trocámos o espírito uivante de dor nas labaredas infernais pela consciência do "prazer de hoje, doença do amanhã". Como não bastassem os males do corpo, acrescentámos os da mente. Os «psis» e os médicos convencionais ou alternativos anunciam desgraças. Que depois tratam com divãs, químicos e agulhas. Um ror de dinheiro a trazer do além o Inferno para o (des)gosto de viver. Rejeito! Prefiro o doce-amargo sabor do pecado e da transgressão.
escrito por Tati 08:34
Veneno ou Açúcar?
Segunda-feira, Março 07, 2005
PEREGRINANDO
Autor que não foi possível identificar
Estarreceram espíritos com o tido como peregrinação ideológica e partidária do Professor Freitas do Amaral. De zigue-zague oportunista que os zeladores bem-pensantes condenaram. De incoerência que os justos e probos não podem consentir.
País de brandos costumes e gentes de línguas afiadas como lâminas... País fadista e fadado a carpir mágoas reais ou inventadas. País que nem... nem sai de cima. Que lamuria mas vive à custa do subsídio de (des)emprego e trabalha com prazo e subsídio no horizonte. Que procura novo emprego (trabalho é raro!) quando o salário é próximo do «cacau» que escorre para o bolso ou a torneira que o debita, doce e quente, ameaça fechar. Que olha de revés o sucesso alheio e se apressa a engordar boatos peregrinos.
O Professor peregrinou, evoluindo. Como soe ser uso nos intelectos que de lá de cima ganham distância aos de vista curta e rasteira. Estando numa fase da vida em que as barreiras não assustam por nada precisar de provar - se o houve, há muito que o «carreirismo» ficou para trás -, pode ter a independência dos espíritos libertos e distraídos dos uivos da populaça.
Freitas do Amaral peregrinou, Sampaio peregrinou, Sócrates e Durão Barroso peregrinaram. Eu, tu, nós, eles peregrinámos nas atitudes e ideias. E depois? Não é a peregrinação ideológica que temo, antes a cristalização partidária/clubística. Esta aterroriza e confrange. Pior ainda quando tida como valor sagrado inscrito na lista das bem-aventuranças.
TELEGRAMA
Bo Bartlet
Ninguém gosta da verdade, a menos que coincida com a sua versão dela. Mesmo quando 2+2=4.
escrito por Tati 07:45
Veneno ou Açúcar?
Domingo, Março 06, 2005
IN & OUT
Lorenzo Sperlonga
Há dias em que amanheço pacífica e indiferente às ameaças planando no dia. Porque isto de acordar, no meu caso, é surpresa diária, ainda que obedecendo a denominador comum: espreitar o dia e fruir do pequeno almoço no silêncio da casa adormecida. Depois, são os gestos costumados com a disposição sorteada ao momento.
Os acordares nos humanos classificam-se em poucas categorias - anestesiados, dinâmicos, tempestuosos e serenos. Os anestésicos são sonâmbulos e inofensivos, os dinâmicos exaurem quem assiste, os serenos são certinhos e previsíveis como relógio afinado, os tempestuosos não admitem som que ser humano emita sem rugido como resposta.
Os meus flutuam nos três primeiros estereótipos. O último experimentei-o como espectadora e, garanto, é tempestade matinal que me atinge como se eu fosse extremidade condutora impotente para deter raios e coriscos. Porque mugir perante quem ruge não me faz o género, é ainda e sempre a água e o silêncio que me protege. E se não amanso as feras, espero acalmia que a «bica», inevitavelmente, dissolva. Bem cheia e sem açúcar.
escrito por Tati 00:52
Veneno ou Açúcar?
Sábado, Março 05, 2005
CORREIO SENTIMENTAL
Susan Madsen
«Na essência, anda tudo ao mesmo: ele procura-a, ela procura-o. Porque a vida é tão somente isto: sobrevivência, sexo e luta pelo poder.»
No amor temos muitas dúvidas e só uma certeza: a do ódio de quem desiludimos. Não temos o que queremos e sempre o que nos oferecem. Ao darem-nos, nem sempre têm o cuidado de nos criar a ilusão tola de que escolhemos. Melhor é dar, esperando que nos peçam primeiro, e retribuir com o que nos é supérfluo. Assim sentimos a vida numa manhã em que os valores condensaram os sentimentos a uma densidade tal que curvamos a luz e sugamos os próprios buracos negros.
Pode purificar-se o veneno do ciúme; pervertê-lo, virá-lo do avesso com uma manga de casaco. É talvez a única terapia eficaz contra o melindre e amor próprio magoado. Arrancar prazer à dor, sabotando-a de dentro para fora. Sentir gozo do gozo do outrem é tarefa de anos, mas destilar, em simultâneo, cinismo e tolerância pode acabar por compensar.
O maior dos enganos? A ilusão que leva a crer na reciprocidade dos sentimentos. O amor e o ódio são sempre experiências solitárias, individuais, da mesma forma que se partirmos uma perna todos nos socorrem, mas a nós dói. Vamos e vimos como as ondas na areia da praia, permanecendo mar onde tudo se dilui, se degrada, quer pela oxidação dos anos, quer pela perda das emoções tónicas da vida, quer pela erosão das crenças inocentes.
Com o tempo, afastamo-nos de Deus, ao qual, por vezes, um arrebatamento nos aproxima ainda para de novo nos perder e afastar. Humana condição: viver a vida como ela é, sem saber nunca como vai ser.
Texto escrito por JG
escrito por Tati 00:15
Veneno ou Açúcar?
Sexta-feira, Março 04, 2005
VENENO
Jim Warren
Numa sociedade competitiva e de brilho, de griffes usadas como rótulo de sucesso, de estatuto social avaliado pela obediências a normas e convenções, a indiferença às lantejoulas que enfeitam os «seres» é tida como excentricidade encantadora, se o estatuto é superior, ou por mediocridade social se o mesmo é rasteiro.
Sociedade gerida por códigos de barras. Normalizada ao acreditarmos quase todos no mesmo - endeusamos a eficácia, privilegiamos a juventude e a tecnocracia. Todos os dias, o ocidente nos acresce um pouco de omnipotência por sofisticar a tecnologia e convencer-nos, a cada descoberta, do poder de adiar a morte. E no deslumbramento sequente quase rivalizamos com Deus.
De todas as sofisticações e supremacias sobrarão apenas Pessoas e uma Terra que sofre. Todas frágeis. E se os humanos interferem com o planeta, ele retribui amanhecendo com sol insensível à tristeza do nosso acordar. Ou tornando de gelo o ar e as coisas. Ao pé da dor poderemos ter um pouco de deuses, mas somos deuses que choram.
escrito por Tati 08:38
Veneno ou Açúcar?
Quinta-feira, Março 03, 2005
ACQUA_R_ELLAS
Autor que não foi possível identificar
Já te contei de uma menina de olhos e cabelo cor de terra, cujo brinquedo maior era a evasão para o mundo inventado? De como se aninhava no cadeirão de verga do jardim ou no sofá do quarto e deixava que as tardes adormecessem enquanto lia? E como lia tudo a que as mãos e os pés esticados chegassem? Das fugas solitárias para o areal molhado pela maré-cheia?
Dessa menina veio a mulher. Feita para amar e voar. Amar pessoas e voar para o mundo de faz-de-conta que nunca quis perder. Porque no regresso sempre trouxe reservas de ideal e vontade a oxigenarem-lhe as horas. Que orientam carícias, que fazem esvoaçar os lábios na pele dos que ama. Gostar, dar, receber são verbos de que não abre mão. Em fatias iguais.
À jovem que antecedeu a mulher não poderias ter amado. A ilusão arrebatava-a, o quotidiano comprimia-a até ao insuportável. Ela não quadrava nas posturas recomendadas; era rebelde, insubmissa e vivia no contraditório. Obrigava-se a exibir o molde certo, para que o «eu», dela apenas conhecido, permanecesse como água e silêncio. Até um dia.
No primeiro dia da vida dela, já muitos haviam passado. Ao identificar a fartura de encenação e a míngua de coerência, abanou o seu pequeno mundo. E tudo tremeu. Ela também. Teve medo, foi forte, fraca, chorou e riu. Aos poucos, da crisálida surgiu a mulher que dizes amar. Dizem-na forte, segura, de queixo erguido como que desafiando o mundo. Mas não, apenas se desafia a si própria. Rejeita a obediência a normas patetas e patéticas. E ri, sofre, é insegura e forte. Até sempre num qualquer dia.
escrito por Tati 08:33
Veneno ou Açúcar?
Quarta-feira, Março 02, 2005
BON CHIC, BON GENRE
Autor que não foi possível identificar
O comum e a diferença. Até em termos institucionais, o assunto mereceu honras: Diversity and Inclusion.
A ideia é nobre - a diversidade é aceite e a inclusão uma realidade tangível. São incontestáveis as virtudes de trabalhar com gentes de outros países, de outros costumes, e raças. Diferenças etárias, étnicas, religiosas. Ter como iguais aqueles a quem o destino roubou fatia dos sentidos ou saúde (a deficiência não pode motivar exclusão).
Contudo, o que peca por excesso perde a virtude quando a diversidade é apanágio, tendência ou moda, quando se invertem referências básicas. A excepção passou a ser o heterossexual. No sítio da moda a selecção é feita pelo uniforme, pela embalagem ou evidência social. Por outro lado, a xenofobia virou as pernas para o ar e o chauvinismo residual entrincheirou-se para as bandas do "Dragãoooo, cum carago!"
Que os homossexuais casem, adoptem filhos, entrem nas forças armadas, «vendam» o exotismo nos media, alimentem lobbies, abanem a bandeira cor-de-rosa nas «manifs», tudo bem. Mas que nunca se perca a noção de por eles a espécie humana findar aqui.
Texto escrito por JG
TELEGRAMA
A beleza da Paris turística a preto e branco no 16mm A Bout de Souffle. Lembro os gestos sem motivo, as frases gratuitas, o Belmondo e a Seberg, o Jean Luc Godard a sublinhar a irracionalidade das condutas e a dar sentido ao mosaico de emoções. E do «nada» se inventou uma nouvelle vague...
escrito por Tati 08:17
Veneno ou Açúcar?
Terça-feira, Março 01, 2005
PEREGRINANDO
Alfred Sundvall
Nunca mais chove desavergonhadamente para, depois, descobrir de quantas cores se pinta a paisagem alentejana, enquanto consolidamos o pecúlio de conhecimentos sobre monumentos megalíticos. Ver pedras sugere ideia pouco apelativa, mas se forem antas, monumentos funerários construídos séculos antes de Cristo, o caso muda de figura.
Teimosos, resistiram a sucessivas destruições, provocadas pela erosão, pela cobiça de alguns pesquisadores e a ignorância dos passantes. Especialistas cartografaram e relocalizaram-nos, estando agora disponíveis através de dois circuitos arqueológicos criados pelo IPPAR. Os percursos feitos por jipes salvaguardam percalços e podemos optar pelo circuito de Barbacena ou pelo do Guadiana. O contacto com a natureza é a constante numa relativa diferença de cenários.
Os terrenos pobres que alimentam a pastorícia, as grandes propriedades de cultura cerealífera, olivais, hortas e plantações de girassol, transportam o viajante para idos da vida rural, sob o olhar ora atento, ora indiferente de vacas, cavalos, lebres e perdizes vagueando no caminho.
E, quando o entardecer cobre, manso, o horizonte, há sempre poiso a sugerir prazeres serenos e interioridade. Um jantar que retome a tradição alentejana é alimento de deuses. A encharcada ou a sericaia, como pretexto para findar a garrafa de um bom vinho da região, é toque divino a elevar-nos ao céu. Que o resto da noite nos prenda à corpórea Terra.
escrito por Tati 08:17
Veneno ou Açúcar?

|